Domingo, Novembro 08, 2009

sextina


ao fim da trilha
cento e oitenta graus de pedra
mármore opalescente
nos olhos tanta luz escaneada
a grama desdobrada em latitude
e sob o sol quase um crime

à sombra quente da pedra
sobre a grama escaneada
depois de voltar à trilha
o mármore em si sem crime
mas ainda opalescente
e as prateleiras do mundo em latitude

o sol era autor do crime
e não a pedra
o olhar conduzia a trilha
e refletia luz escaneada
a densidade cega em latitude
e a grama de extensão opalescente

voltou pela sombra à trilha
perseguindo a latitude
agora por trás do crime
costas voltadas à luz opalescente
quase cegueira de pedra
vendo a vida escaneada

caminhar depois do crime
era mais que opalescente
mais que lembrança de pedra
a visão escaneada
replicava a latitude
em personagens na trilha

o ar mais leve sem a pedra
por entre as sebes da trilha
era quase um outro crime
o mundo desvendado opalescente
lancetava em latitude
sua carne escaneada

Quinta-feira, Novembro 05, 2009

sobrevivente




ele bem sabe
:
o que se viu
carimba o não-lugar a que se chama de alma

ele aprendeu do tempo
impresso na madeira de sua pele
outro lugar de lembranças misturadas
recolhidas

ainda vê
:
o barco
segue singrando sempre o mar da hora
e se é telhado
protege de segredo os sustos da janela
e os estilhaços que cruzam
longe do chão o céu
e a guerra

os rostos de outro tempo
falam com ele
e entre si na sala
onde a mobília da infância
vem visitá-lo depois do meio-dia

o que se viu é texto inacabado
sem prazo de existência
e todo inteiro
essas imagens persistem
recortadas
e destacadas de vez da realidade
quem sabe mortas de mofo no silêncio

mesmo incompletas de sombra
as coisas vistas duram
acomodadas em nichos
na cera do não-lugar a que se chama de alma

Terça-feira, Novembro 03, 2009

encontro

inesperado esse encontro sem aviso e no entanto
como se fosse previsto e já sabido desde sempre
na estação de metrô
onde se marcam encontros tantas vezes
inesperado
com esse gosto de coisa que se espera
sem saber

Terça-feira, Outubro 06, 2009

da Baviera

nem o cansaço da viagem
e a tempestade no mar
conseguiriam tornar mais leve seu passado
nunca aceitou conselhos
e por uma questão de acabamento
era contrário a todos os ardis
: preferia a violência dos ventos e
diluiu sua história em vidas falsas
foi passageiro desapercebido de trens navios
décadas
e instalou seus bigodes amarelos em sessões de cinema
no bairro do começo
mais tarde o kinoplex oitavo piso
imaginando esquecer do que falavam
e a cada distração lembrando
vívidos
os rasantes sobre o telhado em casa de seus pais
e as bombas que detonaram sua infância
para longe do rio e dos vagares
no quintal displicente da Baviera

diante da prateleira dos poemas
imaginava viver numa ilha grega
e num terraço avaliado em sete livros desaparecidos
durante a inquisição
arquitetava planos e viagens
dentro de sua casa de sobrado
sempre a esperar mais do gato e das janelas
do que podiam lhe dar
acumulando visões vozes de antes da guerra
fumaça e pesadelos
noites que nem a madrugada abria
entre monges escribas
caligrafias e iluminuras inutilidades
e poeira
ou páginas flutuando sobre a água
sempre entre as cenas de algum filme
a que assistia distraído na tv
esteve em praga e lisboa
margens do arno
de onde rememorava colombo sem a esquadra
em sua avenida amena antes do almoço
durante os últimos anos do sobrado
de onde podia ver um outro rio

Sexta-feira, Outubro 02, 2009

calçadão


tão leve
vestida de éter
não sente o vento
frio da noite

a noite magra
vaga estendida
debaixo de alguma ponte

cabelo dança
rumo do mar
raízes firmes
no calçadão

a noite é sempre maior
que os horizontes

sem flores
poema nas unhas
inventa
que despetala

a noite ondeia nos lábios
paisagem rubra

Domingo, Setembro 27, 2009

Vincent


Van Gogh. Thatched Cottages at Cordeville.


o mundo se retorce
inconcluído
e estala tantas vezes
na falta de sentido
de viver tanto e tão
intenso
sem nunca parar de morrer

os vídeos são pesquisas onde
o ator de barba ruiva recria
a obra incriada
:
nada o termina ou redime
do alto dos telhados
os corvos negros ao sol
em busca de carniça
os camponeses de rostos tão iguais
sobre ouro e trigo

o espaço de Van Gogh
não dava espaço a Vincent

no céu convulso
pastos de estrelas ardendo de girar
a noite expõe sua resenha
mundo e tormento
e sempre
o recomeço

Segunda-feira, Setembro 21, 2009

a falta




que pena andar em calçadas conhecidas e nem ao menos chegar ao arvoredo na pracinha onde há mais sombra e os insetos criam um ruído de rampa no cascalho liso a deslizar de leve e o que se espera é sempre o não falado a estrutura flexível do desejo e alternativas ao que não pode ser mais que o hálito ou o gesto do momento


ao menos nessa noite pode haver a assimetria de um espaço novo e na cidade algum lugar marcado e indelével como se fosse uma pegada no cimento fresco para se passar sem comentários num leve agitar de asas ou o sobressalto de lembrar na hora do café e ter certeza enfim de alguma coisa mesmo nunca dita coisa infiltrada e aspergida num lugar transportado para a vida