Domingo, Novembro 22, 2009

fugitivo

nos tempos de fuga dormia sobre a terra
clareira de folhas secas à espera
olhos rondam a terra e se confundem nas folhas que podem ser sombras silhuetas mãos armadas da gestapo e porque tem medo pouco dorme ou dorme de olhos abertos assustando quem passa por acaso pelo parque

e mesmo atrás das moitas de folhagens os olhos dele brilham no escuro e há mais alguém atrás das moitas – não conhece esse corpo que ocupa tanto espaço não conhece essa boca que mal consegue ver na semiescuridão porque parte do rosto está coberta por um capuz
é preciso aproveitar a noite quente de julho vestido em um sobretudo encontrado no fim de sua rua depois que os tanques passaram

os tanques não têm música fazem tudo tremer sem dança e não há pássaros nem árvores tranquilas depois deles não há janelas de ver a rua mas olhos vazios paredes assustadas

uma noite sonhou com o mar

Quinta-feira, Novembro 19, 2009

domo









as catedrais seguram as mãos dos visitantes e
interrompem a respiração do mundo
fechada em seus vitrais
toda catedral submerge e
no domo de tempo incerto
tange afogada um sino
desgovernado

Segunda-feira, Novembro 16, 2009

comentário



as margens do amor hesitam
numa incerteza de ilha forasteira
e enquanto o amor é fluxo de rio
as margens se alagaram
de salinas

o que margeia o amor é linha
interrompida em palma confinada
a céu aberto

Domingo, Novembro 15, 2009

fumaça

quando o medo abre a janela
e se esconde em meu armário
pego a bolsa
fecho a porta
saio pra fazer as unhas

sozinho em casa
o medo vira fumaça

Quarta-feira, Novembro 11, 2009

...

chega à janela a esperança de encontrar o ponto luminoso em algum lugar do asfalto no alto da fiação ou quem sabe cruzando o ar debaixo do sol
não qualquer pombo mas aquele / aquela que sempre lhe parece uma fêmea ou porque é clara ou porque é mais graciosa e um pouco menor que os outros ou então
porque algum pombo de papo inchado a persegue em círculos

chega à janela e logo busca a luz tão branca de suas penas inquietas do voo bonito de ver e quando seus olhos pousam nela ou nele (nunca vai saber ao certo porque talvez existam vários espécimes assim brancos e luminosos e de voo traçado contra azul verde sombra e galhos
mas às vezes é impossível encontrar o que procura e alguma coisa se fecha nesse momento porque acredita na possibilidade de presságio (ao menos um

acredita que lhe dá sorte enxergar o corpo branco no asfalto no alto da fiação ou quem sabe
nas asas que cruzam a luz a sombra o verde
e se estiver / passar bem perto da janela aplaca uma ansiedade sem rumo e as palavras indesejadas se dissolvem pó no ar luminoso escancarado do dia em marcha sem freio e um lance de alegria se expande (ela se diz bonita nesses dias

já conversou com a ave e claro não escutou resposta mas sobrecarregou a pomba / o pombo de poderes e valores sem retorno a não ser seu próprio sossego desarrazoado
o que você espera eu perguntei um dia e ela posou um instante ao lado da janela olhou para fora e procurou palavras que explicassem essa fixação numa ave branca que se esparrama no asfalto no ar como um brilho falso

mas na maioria das vezes só estão à vista pombos pretos marrons malhados de escuro cinza

Domingo, Novembro 08, 2009

sextina


ao fim da trilha
cento e oitenta graus de pedra
mármore opalescente
nos olhos tanta luz escaneada
a grama desdobrada em latitude
e sob o sol quase um crime

à sombra quente da pedra
sobre a grama escaneada
depois de voltar à trilha
o mármore em si sem crime
mas ainda opalescente
e as prateleiras do mundo em latitude

o sol era autor do crime
e não a pedra
o olhar conduzia a trilha
e refletia luz escaneada
a densidade cega em latitude
e a grama de extensão opalescente

voltou pela sombra à trilha
perseguindo a latitude
agora por trás do crime
costas voltadas à luz opalescente
quase cegueira de pedra
vendo a vida escaneada

caminhar depois do crime
era mais que opalescente
mais que lembrança de pedra
a visão escaneada
replicava a latitude
em personagens na trilha

o ar mais leve sem a pedra
por entre as sebes da trilha
era quase um outro crime
o mundo desvendado opalescente
lancetava em latitude
sua carne escaneada

Quinta-feira, Novembro 05, 2009

sobrevivente




ele bem sabe
:
o que se viu
carimba o não-lugar a que se chama de alma

ele aprendeu do tempo
impresso na madeira de sua pele
outro lugar de lembranças misturadas
recolhidas

ainda vê
:
o barco
segue singrando sempre o mar da hora
e se é telhado
protege de segredo os sustos da janela
e os estilhaços que cruzam
longe do chão o céu
e a guerra

os rostos de outro tempo
falam com ele
e entre si na sala
onde a mobília da infância
vem visitá-lo depois do meio-dia

o que se viu é texto inacabado
sem prazo de existência
e todo inteiro
essas imagens persistem
recortadas
e destacadas de vez da realidade
quem sabe mortas de mofo no silêncio

mesmo incompletas de sombra
as coisas vistas duram
acomodadas em nichos
na cera do não-lugar a que se chama de alma