Quarta-feira, Outubro 29, 2008

paisagem




muro desfeito
à beira dágua em círculos
concêntrico
ponteiro dos segundos

muro calçado de terra
sustenta a asfixia de suas flores
e escuta
mudo
o tempo vôo do inseto
soco sem luva
ferida aberta à tona

Domingo, Outubro 26, 2008

encontro



de longe na tarde escura
teve a impressão de que o corpo dele
se desfazia em neblina

a imagem se apagava
em sístoles
na esquina da diástole marcada

Domingo, Outubro 19, 2008

imago



debaixo de tuas asas
não tramo nem comungo
: sou teu fungo
sem sombra e sem medula

a imagem que te mostro é ilusória

amputei dedos e língua
falo pela tua boca

sugo teus sonhos
(que para isso servem meus cabelos)
extraio deles o sumo que te serve
à fome
e te sacio

Terça-feira, Outubro 14, 2008

espuma e sal

segredo de espuma e sal
tropeça numa saudade que vem longe
pode chegar de repente
e o medo arde na pele

a alegria se assusta como quando alguém
prepara uma surpresa e é surpreendido

alguma coisa ainda não tem nome
e por um triz consente

o instante se avizinha

a noite todo dia
é sem aviso

Quinta-feira, Outubro 09, 2008

manhã 3



toda manhã traz uma flecha líquida
de luz sem medo
repete algum
segredo interrompido
numa janela que o sono não alcança

toda manhã
reabre uma ferida
e expõe o ventre do dia sobre a mesa

Terça-feira, Outubro 07, 2008

ocidente

ocidente apaziguado
o sol da meia-tarde
no bolso da montanha


o sol da tarde suspira


todos os dias
a terra doma o sol

Sábado, Outubro 04, 2008

eventual



senhora de terra e céu
vivia o tempo da flor

a carne tenra
por trás da pele dura da lagosta