Quinta-feira, Novembro 05, 2009

sobrevivente




ele bem sabe
:
o que se viu
carimba o não-lugar a que se chama de alma

ele aprendeu do tempo
impresso na madeira de sua pele
outro lugar de lembranças misturadas
recolhidas

ainda vê
:
o barco
segue singrando sempre o mar da hora
e se é telhado
protege de segredo os sustos da janela
e os estilhaços que cruzam
longe do chão o céu
e a guerra

os rostos de outro tempo
falam com ele
e entre si na sala
onde a mobília da infância
vem visitá-lo depois do meio-dia

o que se viu é texto inacabado
sem prazo de existência
e todo inteiro
essas imagens persistem
recortadas
e destacadas de vez da realidade
quem sabe mortas de mofo no silêncio

mesmo incompletas de sombra
as coisas vistas duram
acomodadas em nichos
na cera do não-lugar a que se chama de alma

4 comentários:

Amélia disse...

Belíssimo este poema. Um dia ainda o hei-de divulgar...

Lalo Arias disse...

Nossa, Dade, depois de algumas leituras, este poema insiste em continuar ecoando dentro da gente...

Érico Cordeiro disse...

Dade,
Muito bonito o poema.
"os rostos de outro tempo
falam com ele
e entre si na sala
onde a mobília da infância
vem visitá-lo depois do meio-dia"
Há algo de Fernando Pessoa em suas imagens, lembrei de Aniversário (No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto).
Melancolia e saudades: de que mais pode querer ser feita a memória?
Parabéns! Que venham muitos e muitos outros.

Caio disse...

Oi, Dade... Bacana o poema e o blog... Entrei aqui caindo de maduro de blog em blog ...rs...Abrs