Margarida Delgado. Casal.Lembra o vestido de linho que eu vestia?
Naquele dia
estávamos sozinhos na varanda
assim, sozinhos,
e a última luz da tarde estremeceu:
era um transe do tato
um dom do estio
o cio no tapete
e logo a noite.
Lembra a manhã daquele outono frio
no carro leito do trem para o impossível?
Os bailes de fim de ano,
as praias
noites de festa e
as férias
na piazza de San Marco?
Lembra,
lembra de tudo que essas fotos dizem
:
elas nos mostram agora o que ainda somos.
Lembra de tudo aquilo que foi dito
em tantos dias (quantos?)
as frases sussurradas que diziam
as mesmas frases da pele
a ressumar delícias
vivas ao toque
– a nossa pele
que nunca nos falhou suas promessas.
Lembrar é como a flor da tarde
reabrindo
e na varanda
a mesma flor dançando e outra vez
ao vento
nosso desejo insone e insolente
inominado
imenso
e resistente
que se alimenta
de todas as rotinas.