Sexta-feira, Maio 29, 2009

insônia




folhagem debruçada sobre o muro
estrelas roucas zunindo nas entranhas
reza na intimidade um som de grilos

é noite no silêncio das raízes

a luz é mínima e tece
ruas de engano sobre os pensamentos

figuras reticuladas de nós cegos
atravessaram a porta e esperam mudas
que o sono afinal se deite

trouxeram pela coleira
seus cães de caçar os sonhos

Terça-feira, Maio 26, 2009

gênese



meus filhos brincam de roda
a cada vez que nos vemos
mesmo se estiverem tristes
(não dura a tristeza deles
no entanto)
:
bem pequenos
aprenderam canções de bem viver

cresceram tiveram crias
e sempre que penso neles
olham-me furtivamente
como quem leva um choque de baixa voltagem
diretamente no músculo cardíaco

parceiros de hidrografia
nessa rede de bacias
filhos de filhos de filhos
têm em casa meu retrato
para que eu possa conhecê-los
todos
meus meninos

Sábado, Maio 23, 2009

cinema

há muito tempo alguém
nesses lagares
pisou as uvas verdes
de uma colheita violenta
alguma coisa se abriu maior que a tarde
ainda mais longa que a via férrea com suas cancelas
e as pontes que cruzam o mar em certas terras

o homem calado hoje chegou mais cedo
desassossego
dos pensamentos no café junto do rio
e junto com o cigarro se acenderam
as primeiras lâmpadas
quando as estrelas eram ainda
faturas descartadas

nem sempre
os rumos cedem às horas combinadas
e nem é puro acaso se perder
por uma trilha apagada à cor da tarde

há salvação às vezes
(sem brilho
com cicatriz)
porque a demora desfaz todo contorno
as coisas se descolorem cinza chumbo
e o filme é preto e branco

Terça-feira, Maio 19, 2009

Retratos


Margarida Delgado. Casal.



Lembra o vestido de linho que eu vestia?
Naquele dia
estávamos sozinhos na varanda
assim, sozinhos,
e a última luz da tarde estremeceu:
era um transe do tato
um dom do estio
o cio no tapete
e logo a noite.

Lembra a manhã daquele outono frio
no carro leito do trem para o impossível?
Os bailes de fim de ano,
as praias
noites de festa e
as férias
na piazza de San Marco?

Lembra,
lembra de tudo que essas fotos dizem
:
elas nos mostram agora o que ainda somos.

Lembra de tudo aquilo que foi dito
em tantos dias (quantos?)
as frases sussurradas que diziam
as mesmas frases da pele
a ressumar delícias
vivas ao toque
– a nossa pele
que nunca nos falhou suas promessas.

Lembrar é como a flor da tarde
reabrindo
e na varanda
a mesma flor dançando e outra vez
ao vento
nosso desejo insone e insolente
inominado
imenso
e resistente
que se alimenta
de todas as rotinas.

Domingo, Maio 17, 2009

festa

o vento no asfalto quente
é um peso lento ameaçando o mundo
e as copas
feras no cio
sons graves de oboés
pelas estradas
e intermitente a luz
fuzila a terra

a chuva chega
e é festa de serpentes
nos telhados

Segunda-feira, Maio 11, 2009

ruínas



a luz de ruína da lua
racha colunas de gelo
desde o ártico
até os pilotis de nosso prédio

(esses contornos de prata assim
escura
decodificam o mundo)

juízos equivocados
algumas ilhas errantes
e raízes desterradas
revolvem o concreto desgastado
das calçadas
enquanto as asas da lua
fogo frio
roçam de brilho
o corpo do oceano

Quinta-feira, Maio 07, 2009

idolatria


todas as manhãs
de sua gaiola
a ave olha pela janela
a grande águia de asas de bronze
sobre o telhado do Theatro
e canta como nunca