o voo arco de luz gota de ar mistura cor e núcleo a música e o silêncio as asas resvalando no limite o fôlego mais leve o corpo inflado as penas contra o vento ave no aprendizado de uma vida breve
quase manhã e o vento urdindo a luz em hastes cores concreto e áspero de asfalto lascas de sol nas vidraças os edifícios erguem punhos severos contra o céu e lançam calmos enigmas sem letras à carne da cidade amanhecida temperada em vida e óleo diesel
pelas frestas do céu lascas de vento desfazem em hastes e penas as figuras que ainda resistem pássaros carne pequena em busca de um céu calmo contra os punhos do ar e seus cristais
se ensaiasse voar no fim daquela noite seria o mar aberto o brilho cego do abismo e a aurora sobre as copas ao fim do voo. o dia um ganho inesperado, se conseguisse deslizar alada cheirando a frutas e flores e se cortasse os ventos, hastes, cabelos trançados de aves, águas riscadas e a terra que tremesse. longe do grande barco, plana distante do alto do nono andar em círculos isentos e quer a vida branda das paisagens. larga as cortinas sem medo do trânsito engarrafado que ainda ruge às dez da noite.
impossível imaginar que alguém pudesse lançar raízes secretas nas veias de outra pessoa e começasse a falar por sua boca ver o mundo de seus olhos e plantasse insuspeitado uma semente do mais ineludível dos desejos em sua vontade até que todo brotado de rosas e raízes hera e jasmins monitorando o hálito ele investisse a vida os gestos penhorados e emaranhasse o próprio enleio às pernas dela pelo tempo dos espelhos combinados