Terça-feira, Outubro 06, 2009

da Baviera

nem o cansaço da viagem
e a tempestade no mar
conseguiriam tornar mais leve seu passado
nunca aceitou conselhos
e por uma questão de acabamento
era contrário a todos os ardis
: preferia a violência dos ventos e
diluiu sua história em vidas falsas
foi passageiro desapercebido de trens navios
décadas
e instalou seus bigodes amarelos em sessões de cinema
no bairro do começo
mais tarde o kinoplex oitavo piso
imaginando esquecer do que falavam
e a cada distração lembrando
vívidos
os rasantes sobre o telhado em casa de seus pais
e as bombas que detonaram sua infância
para longe do rio e dos vagares
no quintal displicente da Baviera

diante da prateleira dos poemas
imaginava viver numa ilha grega
e num terraço avaliado em sete livros desaparecidos
durante a inquisição
arquitetava planos e viagens
dentro de sua casa de sobrado
sempre a esperar mais do gato e das janelas
do que podiam lhe dar
acumulando visões vozes de antes da guerra
fumaça e pesadelos
noites que nem a madrugada abria
entre monges escribas
caligrafias e iluminuras inutilidades
e poeira
ou páginas flutuando sobre a água
sempre entre as cenas de algum filme
a que assistia distraído na tv
esteve em praga e lisboa
margens do arno
de onde rememorava colombo sem a esquadra
em sua avenida amena antes do almoço
durante os últimos anos do sobrado
de onde podia ver um outro rio

Sexta-feira, Outubro 02, 2009

calçadão


tão leve
vestida de éter
não sente o vento
frio da noite

a noite magra
vaga estendida
debaixo de alguma ponte

cabelo dança
rumo do mar
raízes firmes
no calçadão

a noite é sempre maior
que os horizontes

sem flores
poema nas unhas
inventa
que despetala

a noite ondeia nos lábios
paisagem rubra