chega à janela a esperança de encontrar o ponto luminoso em algum lugar do asfalto no alto da fiação ou quem sabe cruzando o ar debaixo do sol
não qualquer pombo mas aquele / aquela que sempre lhe parece uma fêmea ou porque é clara ou porque é mais graciosa e um pouco menor que os outros ou então
porque algum pombo de papo inchado a persegue em círculos
chega à janela e logo busca a luz tão branca de suas penas inquietas do voo bonito de ver e quando seus olhos pousam nela ou nele (nunca vai saber ao certo porque talvez existam vários espécimes assim brancos e luminosos e de voo traçado contra azul verde sombra e galhos
mas às vezes é impossível encontrar o que procura e alguma coisa se fecha nesse momento porque acredita na possibilidade de presságio (ao menos um
acredita que lhe dá sorte enxergar o corpo branco no asfalto no alto da fiação ou quem sabe
nas asas que cruzam a luz a sombra o verde
e se estiver / passar bem perto da janela aplaca uma ansiedade sem rumo e as palavras indesejadas se dissolvem pó no ar luminoso escancarado do dia em marcha sem freio e um lance de alegria se expande (ela se diz bonita nesses dias
já conversou com a ave e claro não escutou resposta mas sobrecarregou a pomba / o pombo de poderes e valores sem retorno a não ser seu próprio sossego desarrazoado
o que você espera eu perguntei um dia e ela posou um instante ao lado da janela olhou para fora e procurou palavras que explicassem essa fixação numa ave branca que se esparrama no asfalto no ar como um brilho falso
mas na maioria das vezes só estão à vista pombos pretos marrons malhados de escuro cinza