quarta-feira, junho 20, 2012

Divinação



A matemática rendada do poema
pousa questões sem resposta
até onde a vista alcança.

Uma razão lançada sobre ele
é uma rede vazia imaginária
de pressupostos ininteligíveis.

A malha que tentou conter o poema
plena desfaz-se em fibras
e entrega sua estrutura ao mar aberto.

A santidade que o envolveu
errante e transgressora
fura de irrestrições o seu tecido.

Porque o poema é trêmulo e transpira
cabe talvez num sonho dissoluto
mora no instante mesmo em que se esconde.

segunda-feira, junho 18, 2012

Um ano só




Um ano não começa
recomeça
em cada vida
nas revivências
lembranças
dores
e o que foi sonho
é sonho sempre
independente
de numerais
ou calendários.

Um ano não começa
um ano sopra
aos ouvidos
um ano supre de sonhos
desconversa
inova fatos
marca a memória
para outros anos
enfim chegados.

Um novo ano é como um barco
singrando mares novos
talvez
quem sabe antigos
mares de quem já navega
terras secas.

Em cada vida
o ano começou
de uma placenta
e já sabemos
quando termina
ainda sem data
até que a data chegue.

sexta-feira, junho 15, 2012

Casa




O que era tão belo
despertou em nós uma cobiça
benigna
como teria que ser
já que éramos felizes.
Passávamos pela casa
tantas varandas
vasto quintal
piscina
e um jardim que apenas realçava
a construção mais bonita dessa rua
talvez de muitas outras.

Hoje passei por ela
bem conservada
acho que ainda mais bela.
E se você não tivesse tão cedo
deixado este mundo
com certeza estaríamos morando nela.
Ou quem sabe
você se instalou
invisível
naquela casa
que cobiçamos juntos
há tantos anos.


quarta-feira, junho 13, 2012

Violetas

Lá fora chove
e nada do que digo
é o que queria dizer.

Estou imóvel
e tenho a pressa
de uma presa ante o felino
eternamente preparando
o bote sem desejo
e a agonia poreja das paredes.

Asas coladas
voltamos ao casulo
seres viscosos
unidos no tormento
de um momento que não volta.

Além dessas janelas
a vida comemora seus enigmas
quatro estações e luas
e o vento vibra
por ruas e praças.

Em nosso espaço
somos peso de carne no açougue
sem mais surpresas
repete-se o que não houve
e nos reflete
em duas dimensões
– silêncio e chuva

quase violetas
de caule já desfeito.

                                                           Imagem sem citação de autor.

segunda-feira, junho 11, 2012

Pergunta



Eu me pergunto
por que o impulso
de ver mais longe
saber mais perto.

É quase noite
e ainda pergunto
por que o dia
não foi capaz
de saciar
esse delírio
e a ansiedade
pelo momento
de ver você
enfim chegando.


sexta-feira, junho 08, 2012

Fotos

As fotos de família
são uma terceira pessoa
sorrindo de um tempo
bem diferente.
As fotos de família
trazem de volta
o que já não existe.

quarta-feira, junho 06, 2012

Timidez


 
Escondo-me nos dias
como entre nuvens
espumas
para assistir a vida
atenuada.

segunda-feira, junho 04, 2012

Exílios


Sem menção de autor


Tempo e vento nos enganam
e pesam sobre o mundo.

Todas as árvores
lenhos cortados
lenha e fogueira
ainda verdes as folhas
e o mundo não clareia.

Segue no exílio do tempo
a ventania
que entanto chegará a seu final
som de oboés
canto sem luzes
um filme de projeção interrompida.

sexta-feira, junho 01, 2012

Tranças

Às vezes,
quando o passado se trança com o presente,
as coisas se complicam
e nosso tempo acaba ficando assim,
meio em tiras,
o perdido e o ganho convivendo em uma paz aparente
que a qualquer momento pode se esfarelar
e fazer desandar a vida