quarta-feira, abril 30, 2014

As dúvidas de Ismália





Atiro-me no céu
o mar me acolhe
jamais estou bem certa
ou satisfeita.
Não sei se mate ou morra
se decorra
ofenda ou me defenda
se pesquise
atente ateste desafie indique
ou simplesmente fique
dopada e colorida
consumodeslumbrada.

segunda-feira, abril 21, 2014

Veneza versão 2





A mais brilhante estrela está mesclada
a uma sujeira cósmica de argueiros
a uma poeira negra e cintilante
— crinas dispersas de um cavalo negro
juba noturna do leão de Marcos.

Do vão da noite os pórticos abertos
chamam a seu rumo o sonho e o poema
mas a ilusão comanda essa viagem:
seguirão no vazio estas palavras
beirando a noite e seus caminhos sujos
rememorando lembranças — crina e pó
sobre Veneza partida em seus cristais
estátuas perdidas no passado
e seu perfume de tapetes raros
o céu tremeluzindo em seus canais.

sexta-feira, abril 11, 2014

Finito





Perto de um cais noturno, treva espessa,
conto as estrelas sozinhas e me esqueço
de quanto sou também sozinha e triste
desde semanas atrás, quando partiste.

Conto as estrelas caladas e o silêncio
contém a escuridão e é como incenso
subindo em homenagem aos que sofrem
cantando um mudo canto sem estrofes.

E nesse cais escuro debruçada
olho o balanço sem fim da água apagada
pensando vagamente no romance,

jogo finito no primeiro lance,
que foi como um poema ou uma chance
de renovar a vida e deu em nada.

quinta-feira, abril 03, 2014

Brisa



a brisa mansa
põe no coração um sorriso

e súbito o sobressalto


quinta-feira, março 27, 2014

Mínima geometria




O vento passa em silêncio
e o papel de leve se arrepia
de obliquidade.

As sombras circulando no cinzeiro
e o vidro que reinaugura
sua constelação cotidiana.

Alguma coisa nos sentidos
move-se como as peças de um puzzle
uma redescoberta de formas despertando
a cera do não lugar a que chamamos alma
– eles repousam plenos
sem fome sede ou paixão
a forma que lhes cabe.

O olhar anima
nem vegetais, nem pedras
nem do mar
: secretos
os objetos são como os poemas.