sexta-feira, outubro 28, 2011

Cantigas do bom emprego III


5

Enquanto você fica em seu canto
tanta gente passeia pelos shoppings
amigos se divertem em tantos lugares –
o que se passa pelo mundo?
Alguém deve saber
não eu.

6

Em mares muito azuis
de listras espumadas
ou na poeira opressa
que precede
a névoa das chuvas mais pesadas
posso ver o que desejo
em vez do que de fato se vê
como se os olhos
fossem projetores e não órgãos.


quarta-feira, outubro 26, 2011

Cantigas do bom emprego II

3

De meu quarto andar
acompanho notícias de águas
que vêm e vão para longe
pelo útero escuro da rua.
O que cabe em minha agenda
é um esqueleto falso
fabricado às pressas
de um dia sem pauta
cheio das linhas tortas
por onde não terão a coragem
de dizer que Deus escreve (direito?)
o adverso.
Alguma espécie de entendimento
deve ser possível
mas os bueiros engolem o embrião
traçado em um caderno de capa cinza-pérola
– um organismo vivo é outra coisa –
e meus sensores rugem à passagem
de um relâmpago retardatário
luz do rompimento
o limite de onde a treva desenha
o outro lado da rua
e a rua me chama para longe
da cumplicidade e das máquinas.

4

Lá se encontrará um canto secreto
e me acharei madura de esperar
existe sim esse lugar
ou o que seja
pelo tempo que se passa desejando.

segunda-feira, outubro 24, 2011

Cantigas do bom emprego




1

Aqui é um chão escorregadio
juncado de lápides
que é preciso caiar todos os dias
– falsos profetas vêm inspecionar
para produzir seus fogos de artifício
e retirar as máscaras
depois do expediente.

2

As paredes do escritório ostentam
pôsteres
de dizeres moralizantes.
Não sei se alguém ganha com isso.
Não sou paga para saber.
Fico indevida
insólita para mim mesma.
Há quem me ache simpática
um pouco aluada às vezes.
Os cartazes vêm de programas avançados
máquinas traiçoeiras
que tiram o emprego bom e quente dos meninos.

sexta-feira, outubro 21, 2011

Migração



A pele é rio ao sol
que o silêncio singra
e migra em busca.

quarta-feira, outubro 19, 2011

Despertar

Lovers. Slawek Gruca.

 
Sonhos de chuva
juntaram nossas mãos
sobre as cidades.
Países de nanquim
tornearam estradas
sobre a tristeza
e os pergaminhos
brotaram girassóis
de salvação.

Mas tudo foi inútil
quando acordamos
e o dia era de sol.

segunda-feira, outubro 17, 2011

Nossa história



Se numa noite de inverno um viajante
como diria Calvino
abandonasse o caminho conhecido e arriscasse
tudo que lhe poderia acontecer
o pé torcido o medo um mau encontro
ou se perder em estradas alagadas
seriam responsabilidade dele mesmo
e entanto
quis reviver o gosto da aventura
e o risco
tinha saudade do risco
os ossos mal encaixados
e um tremor de adrenalina mal distribuída.

Nossa amizade começaria
numa clínica
ele muito mal-humorado.

sexta-feira, outubro 14, 2011

Viagem


O apito do trem ao longe
dá a medida de todas as manhãs.

Recomeçar
é desdizer rotinas.
Em cada trem florescerão janelas
matas pomares
– mas antes vêm as pontes
tardes duras
sem voos sobre o pasto
monotonias de terra batida
rachada
vidas mudas
e o trem traz de roldão
pequenas dádivas de luz
numa estação noturna
fugaz e anônima.

Talvez a treva proíba campos verdes
e a névoa das manhãs
impregne desolada os passageiros
pela vidraça do sono.

Prados
cidades céleres talvez
estradas repetidas
levam até o sol
e as vinhas da colheita
enchem o ar de perfume.

Mais devagar
do outro lado
imagens e desejos acordados
amadurecem cachos
e o rio se distende em seu destino
rumo ao vinho.

Ao longe
se adivinha o mar
toldado de distância.

quarta-feira, outubro 12, 2011

Pássaro


No teto da catedral
pássaro tonto
voa sem saber
onde ficou o céu
quando deixou o azul.

Pássaro preso
em penumbra
perdido entre as janelas.



terça-feira, outubro 11, 2011

Estrela da manhã

Estrela da manhã
senhora minha
transparecem no ar
tua promessa
e a cor que se prepara.


segunda-feira, outubro 10, 2011

Imprevisões

Por trás do ombro
o espelho reflete um rosto
e o amor toma conta do quarto
o amor toma conta da vida.

Árvores se alegram
galhos gorjeiam
e as cores vão mudando de matiz
enquanto a luz recria suas raízes.

Às vezes merecemos
a festa de umas flores
de viço passageiro.

As flores têm vida breve
a festa ninguém pode prever
enquanto luz e escuridão se alternam.

sexta-feira, outubro 07, 2011

Raízes


Voando a bordo do vento
alçam asas provisórias
papéis alados
notícias
ilusões
recibos e garantias
cartas rasgadas e folhas
intenções
e regalias.

Voam véus
cortinas
sonhos
e aves tontas na vidraça.

No chão
imóveis
raízes
responsáveis pelos galhos
e lenhos de nosso alento
ensinam
sem dizer nada
nem tudo voa no vento.

quarta-feira, outubro 05, 2011

Um poema de Nydia Bonneti

a voz do homem grita — pedra
a rocha ecoa — sal

no coral dos aflitos — estratos
minerais

silícios cristalinos
octaedros azuis

lâmina

e

corte

areias incontidas
por incontáveis mãos

espuma

e

vento forte

segunda-feira, outubro 03, 2011

Ainda assim


Passou a hora do baile
e ainda assim persistem
ritmos quentes
salsa e tangos
estrondos de rock puro
sem rodeios
e serpenteia um blues
languidamente.

sexta-feira, setembro 30, 2011

Trama


Uma história foi tramada
em cores e desalinhos
canções cruzadas
e passos
companheiros.

O amor cortado aos pedaços
é amor para sempre inteiro.

quarta-feira, setembro 28, 2011

Tardes de outono





1

Nas imagens da janela
ventos novos
e os ecos inseguros de outras vozes
timbres e entonações passando ao largo
presenças apressadas
se distanciam
cenários desenhados
constelação de outras vidas
nos condomínios do outono.

2

Lá fora grassa um sol enganador
como se o mundo fosse uma quimera
é outono
e o sol mascara as sombras
como se entrasse hoje a primavera.

3

Fecho as cortinas
isolo o mundo
em sua esfera invisível
mais fria a cada instante.
A experiência de ser é quase trégua
entre os ruídos amigos do relógio antigo
e o despertar discreto de meu gato.

Mas o silêncio grita na memória
e como disse o poeta
não adianta fugir
que viver não tem cura.

segunda-feira, setembro 26, 2011

Continente

O que não me pertence
segue um caminho
sem volta.

sexta-feira, setembro 23, 2011

Sideral


Costurado entre as vozes
o silêncio
passa despercebido.
E no entanto
sem ele
palavras seriam vãs.

Silêncio é o espaço
entremeado às palavras
como o espaço sideral
a sustentar estrelas.

quarta-feira, setembro 21, 2011

Súbito




A qualquer momento
a flor dos sentidos
se faz breve.
Quando menos se espera
mergulha-se num mar
insuspeitado.
De repente
entra em eclipse
tudo que se pensava
de viver.


segunda-feira, setembro 19, 2011

Diante do mar



 Imagem da Internet sem menção de autor.


Entre as árvores da costa
se ouve a voz que vem do mar
ele sussurra
segreda
alguma coisa sem nome
– talvez revele
ao coração da terra
a dor secreta
que não cabe
nem se consola
nas grandes ondas
e resiste
a todas as investidas.

O coração das marés
entregue ao tempo
arremata
embala e adormece
as cinco luas de nossos sentidos.

sexta-feira, setembro 16, 2011

Paisagem



Busco alguma vida
um reinício
mesmo desgastado
para repor as aves que fugiram
durante as décadas do engano.
 As chuvas de hoje
fecundaram as margens da barragem.
As águas podem remover cidades
e nada é para sempre
nem mesmo essa paisagem
nem a verdade que um dia
foi só nossa.

quarta-feira, setembro 14, 2011

Exílios


Segue no exílio do tempo
a ventania
sons de oboé
canto sem luzes
que não nos deixa ver
o fim do filme.
E enquanto o vento insinua
esse final
que não conhecerei
desaparece da vista
alguém
no silêncio imensurável
da distância.

segunda-feira, setembro 12, 2011

Barco sem nome




A saudade de que falo
foi como um barco sem nome
sem destino declarado.
Não demorou no cais
o tempo que os barcos levam.
Saiu logo
queria singrar todos os mares
todos aqueles
que lhe parecessem
muito azuis.

sexta-feira, setembro 09, 2011

O dia


Versões de antigas manias
variam conforme o tempo
nas mudanças de estação.
Ilusões novas vêm na primavera
em pencas de perfume imaginário
festa de aniversários coloridos.
Termos escuros escolhem o tempo frio
seus fantasmas
depois de o outono
ter esgarçado os tecidos em mil ventos
restos de lua entre as nuvens picotadas
e uma ilusão mais densa faz ouvir
o eco sufocado de tambores
que vêm de algum lugar
mas não sei qual.
Uma excursão a terras escaldantes
emana desses rios quase secos
dissolve as cores
e tudo que aprendi das flores
o coração desfeito pelas praias.
Sereias
como se o mar antigo
ainda ofegante
voltasse despejando sobre a areia
a sensação escaldante
de que o perfil mais desejado não vem nunca
retido pela distância de outros mares.
Verão é a estação do que se nega
a que acelera a perda
e desengana todas as esperas.


Entre estações
não resta qualquer sinal da glória antiga.
Uma versão de branco
veste calada seu caminho neutro
desdobrado
de rumo em rumo
à espera do que pode ser o dia
de usar perfume de rosa
e lancinante
despenhar pelo abismo de outra noite.


quarta-feira, setembro 07, 2011

Ele



Segue secreto entre os antigos gestos
cabelos embaraçados em distâncias
e atravessa a noite
emoldurado
por uma harpa de sombras descendentes.

Agora é como um ímã
desmagnetizado em desenganos.

  

segunda-feira, setembro 05, 2011

Cortinas


Estou pensando num quadro
que traga texturas novas
cortinas esvoaçando
nuvens
filó-colméia
voile
e luzes tecidas
além da moldura
desbordando
sem nunca pensar no fim
redes de subir ao céu
e voltar
bobas de estrelas.


Poema reeditado.

sexta-feira, setembro 02, 2011

Silêncio





Quando o silêncio
calado a medo
inventa a guerra
e rasga o tempo
morte nas dobras
é silêncio falso
cheio de espinhos
escondidos.

Silêncio verdadeiro
é transparente
cristal
capaz de flexão
manso nas palavras.
Silêncio verdadeiro
é papel de presente
envolve a paz.