sexta-feira, junho 08, 2007

Espelho

Alguma coisa insegura
paira suspensa
no abismo
cisma no rosto.

O tempo passa
a máscara vincada
se altera
em aura e brinca

no corpo
nos cabelos
ora incerta.

Nos espelho
o antigo apelo
mostra o avesso.

quinta-feira, junho 07, 2007

Poliedro


anton peticov. the inner look.

Do jogo articulado no começo
resta pouco
:
a curva menos firme
fios ainda dourados no cabelo
no braço esquerdo
o sinal.

Células novas
de antigo desencanto
e as fotos
os espelhos.

terça-feira, junho 05, 2007

Salto no escuro ao sol


Pablo Picasso. Françoise Gilot.


A sensação de segredo da
semente ainda fechada
algum desejo sem nome
rua quieta na manhã
cidade em férias.
Caminhar sentindo
o sol
ainda morno
o melhor do verão
não o melhor
da vida.

Melhor talvez
ceder um pouco mais
ao outro lado
sentir-se menos responsável
menos ferido
mais liberto.
Ver em qualquer lugar
uma isenção
e conviver com a rotina
o desencanto
as lembranças.

Ter que existir
corola
que teima em não fechar e
fica recebendo o mundo
no coração.

segunda-feira, junho 04, 2007

Vento

O vento percorreu a tarde inteira
cortinas agitadas
jogou ao mar ligeiros lenços brancos
e mutações na areia.

Se o vento revogasse as leis mesquinhas
as frases feitas, juízos e conceitos
com que tecemos nossos disfarces
meias-verdades mentiras

o mundo mudaria sua face
e o sol talvez nascesse em plena noite
para mostrar o mal que o vento leva.

As ilusões, as crenças e disfarces
perderiam seus açoites
e o amor teria enfim vencido a treva.

domingo, junho 03, 2007

Timidez



Escondo-me nos dias
como entre nuvens
espumas
para assistir a vida
atenuada.

sábado, junho 02, 2007

Incidência

Em meu tempo de criança
achava que a realidade
era uma caixa de ruge
cheirando a royal briar.

Em meu tempo de criança
não havia realidade.

Muito mais tarde aprendi
a realidade é nuvem sobre um rio.
A realidade chora sobre o rio.

Quem será essa senhora?

quinta-feira, maio 31, 2007

Notícia


Edvard Munch. Mãe morta.

Vou aos pedaços
no limiar da fuga
para onde continuo sem saber.

Aprendo agora o que teus olhos dizem
a contemplar o que não posso ver.
Teus olhos se perderam noutro tempo.

Mãe
a morte te transcende e me transcende
mas não te apaga.
A morte é o fim de todos os presságios
uma armadilha
a morte é uma aranha em sua teia.

Mãe
a morte vigilante aos poucos enredou
a tua irmã que mais amou a vida.

terça-feira, maio 29, 2007

Trama

A história foi tramada
em cores e desalinhos
canções cruzadas
e passos
companheiros.

O amor cortado aos pedaços
é amor para sempre inteiro.

domingo, maio 27, 2007

Marinha


René Magritte. La grande famille.

Às vezes o mar dorme
a prensa do silêncio
guardada nos abismos.

Limiar



Te amo e te perder é o que mais temo
mas não suporto mais viver sonhando
e não saber se vivo ou se deliro
ou se é real o que no entanto espero.
Temo perder o amor que nunca tive
ou o amor que tenho sem saber ao certo.
Temo o olhar que vem desses seus olhos
e a falta desse olhar me desepera.
Já não sei mesmo se vivo ou se te espero
se sou a tua escrava ou uma princesa
se o amor que sinto é vida ou é demência.
Já nem sei mais dizer o que mais quero:
se é ficar e morrer dessa tristeza
ou ir embora e morrer de tua ausência.

sexta-feira, maio 25, 2007

Negligências


Palavras têm vida própria
brotadas dos vãos do dia
ou de uma vida feroz
que vem de dentro.

Independentes
visitam nossa boca
repetem negligências.

Às vezes nos escapam
voam sem rumo
pela voz do vento.

quarta-feira, maio 23, 2007

Filme

Um eco de juventude toca a terra
sereias olham a praia

Sereno o mar acolhe a mesma lua
e mansamente canta a madrepérola
os sons do céu trazidos pelas conchas
canções de areia e espuma
e as faces da paixão que o luar
oblíquo
prolonga além de todas as idades.

No escuro do cinema
tudo é de novo como antigamente.

segunda-feira, maio 21, 2007

Ouro Preto




Uma demência rasa
sorrateira
frutificando em cada vão de porta
cortou bem rente todas as certezas
e do passado restaram
balcões e alguns fantasmas.

Em cada rua relógios
sem ponteiros
pássaro tonto de tempo nos telhados
e o calendário esparso nas calçadas
procissões
vozes de amores findos
subindo dos bueiros.

domingo, maio 20, 2007

Quimera


Louis Anquetin. A avenida Clichy às cinco da tarde.

No relógio da sala
uma quimera antiga
escala as horas.

sábado, maio 19, 2007

Janela III



O dia surge em torrões
luz do oriente.
As horas se desdobram em véus
abelhas
cores florescem.

E quando a noite inaugura
a imensa catedral de uma janela
três estrelas recortadas
papel prata e purpurina
se derramam pela sala.

À luz da lua
desassisado o rio desatina
e canta
como se fosse o mar.

sexta-feira, maio 18, 2007

Vernissage


E. Munch. Blossom of pain.

Desejos desenharam
imagens na lembrança.
Arqueologia de rastros
os retratos.

Desfeita a perspectiva
adiar a vida
em paralelas atiradas longe
ao tempo.

quinta-feira, maio 17, 2007

Hoje



Hoje não quero nada do que tenho
hoje não quero
senão o impossível.

Hoje é o combate das sombras
a discussão sem rumo
o indiscernível.


terça-feira, maio 15, 2007

Cidade


Foto C. Costa

Um ônibus ronrona
aço irritado
entre ruídos sem nome.

De uma janela
a esperança espia e se recolhe.

O céu toldado resume
as ameaças do mundo
nos galhos da amendoeira.

Alheio a tudo o menino
pedala para bem longe
uma canção de infância
e salvação.

segunda-feira, maio 14, 2007

Testemunha



Quando você sai
e o retrato da mesinha
alonga o olhar de paz
à mão com que aceno da janela
percebe com certeza
antes de nós
a transfiguração da tarde
e o blues que se insinua pela sala.

Esse retrato
conhece
a perfeição sem palavras
o inominado
o estado puro do amor
como um rosa perfeita
despetala.

sábado, maio 12, 2007

Destudo



Em meu jardim imaginário e frio
o imenso templo sem deus
ficou vazio.

O olhar não segue mais
vulto nenhum
e os planos de viagem
versam agora mapas
de miragens.