sexta-feira, março 08, 2013

Adágio





Caminha com as mãos às costas
olhando o chão como quem procura
talvez uma alegria
talvez um bom motivo de viver
como por exemplo seu gosto por comida
ora interdito.

Pelas janelas da casa voaram mais que cortinas
e há silêncios guardados nos armários
onde antes se guardavam remédios fechados à chave
com o cuidado de quem cultiva vírus num laboratório
enquanto as crianças brincam no quintal.

Uma cintilação de mar ao longe
pode ser vista entre os cascos de navios
e barcos de regata
o homem do cais puxando suas cordas
bronzeado de dar inveja
fotógrafos procurando os ângulos melhores
bem além do varal onde esqueceram uma saia.

Há um ventilador parado no canto de um dos quartos
porque fazia frio como agora
as paredes são da cor da sombra
quando falta o sol
e todos os brinquedos nas estantes cantam à capela
um adágio desencontrado
sem esperar um terceiro movimento
no aquário onde um peixe vermelho escureceu.


Poema reeditado

segunda-feira, março 04, 2013

expedientes




não há nada pior que a solidão
quando se sabe
que a carrocinha do sorvete está na esquina

fugir será talvez uma saída
antes que a réplica do amor se sobreponha
a nossas belas viagens de recreio

melhor que tudo
ainda acredito
é o lastro que mantém a embarcação à tona

quarta-feira, fevereiro 27, 2013

Acontece

Encontrada a passagem perdida
outro viaja
e quem pagou por ela volta à fila.

sexta-feira, fevereiro 22, 2013

Ponta do dia

Sob seus olhos
os traços se multiplicam no sorriso
lembranças que ele não deixará perdidas
se o dia parar no extremo
e intrromper a conversa deles dois.
Junto à janela, na hora do café,
vendo a coberta jogada sobre o sol
durante as tardes
ainda não sabe do escuro
nem de abismos.
É sempre que o sol declina
esse momento extremo de ravina
às vezes rosas
copas verdes
- clareiras
e o pasto
ondulando sob o vento.

segunda-feira, fevereiro 18, 2013

Voo



Abri a janela
e o pequeno silêncio
voou
diluído em luz.

sexta-feira, fevereiro 15, 2013

Joias falsas





As omissões
batem insistentes no teto do porão.
E quando alguma
cruza comigo na rua 
demora um olhar de enigma em meu rosto
e seu sarcasmo fere os sentimentos
que todas as manhãs
esfrego sobre a pele
para exibir integridade
e altivez
(que para isso servem
as joias falsas
e as virtudes ostentadas).

domingo, fevereiro 10, 2013

Pergunta





Eu me pergunto
por que o impulso
de ver mais longe
saber mais perto.

É quase noite
e ainda pergunto
por que o dia
não foi capaz
de saciar
esse delírio
e a ansiedade
pelo momento
de ver teu vulto
chegar mais perto.

segunda-feira, fevereiro 04, 2013

À la Clarice




Se a luz percorre nosso corpo
e o amor se apaga
a escuridão nos ata
e a ausência de quem se ama
pesa mais.

Uma palavra pronta a ser dita
que os lábios calam
é silêncio maior que a música
e canta
de entristecer.

Carregamos o peso das ausências
as palavras caladas
e os desejos
despetalados
antes de florescer.