A chuva se recria nas folhas da amendoeira e a noite canta na franja dos telhados a madrugada líquida que chega.
É tanto o que independe de nós
aos olhos mais atentos – as luzes vacilantes nos suprimem e nada saberemos dos bichos escondidos do escuro mais escuro – nada de tudo que subsiste sem que os sentidos registrem.
Há muito tempo alguém
nesses lagares
pisou as uvas verdes
de uma colheita violenta.
Alguma coisa se abriu maior que a tarde
ainda mais longa que a via férrea e suas cancelas
pontes que cruzam o mar em certas terras.
O homem calado hoje chegou mais cedo
desassossego
dos pensamentos no café do rio
e junto com o cigarro se acenderam
as primeiras lâmpadas
quando as estrelas eram ainda
faturas descartadas.
Ele falava às vezes como quem desembarca de estrelas
trituradas
farpas que ela seguia pisando pelas curvas do dia
falas rascantes capazes de quebrar o sono
como cristal estilhaçado por uma voz de soprano.
Ele falava às vezes como quem grita de feridas
que ela não via mas ardiam sem cura
Uma palavra acesa
seca e triste
fulgura a um sol pequeno
isento
orgulho e frio
desvinculado de todas as órbitas
sem remissão nem volta
irresgatado de toda brandura
uma palavra ausência e orfandade
distante dos sentidos.