sábado, dezembro 22, 2007

Neon


M. Chagall

A gente era um contraste
vermelho vivo
no cinza dos asfaltos
lilases lusco-fuscos
todas as nostalgias do neon.

A gente se entornava pela rua
e transbordava alegria
quente o riso
um destempero solto na avenida
na mão
um saco de pipocas

quinta-feira, dezembro 20, 2007

Aranjuez


Foto Nora Borges.

À luz da tarde
as coisas do dia-a-dia
pertencem ao céu à terra
e aos olhos.

À luz dessa hora
uma cidade pode ser
poema provisório
ou Aranjuez.

domingo, dezembro 16, 2007

Naufrágio



Letras rasas embarcadas
no gesto de quem navega
dentro de uma garrafa
pertencem a qualquer um.

A mensagem de papel
atravessou a distância
destinada ao infinito
até que encalhou na praia
das ambições naufragadas.

sábado, dezembro 15, 2007

Bábuska



Dentro de mim me repito
menor que eu
maior que eu.

sexta-feira, dezembro 14, 2007

A surpresa nas palavras


René Magritte. Homem de costas e lua.

Uma nesga de futuro
se instala em cada palavra.
Desmente quem a decifra
devora quem a procura
desvenda qualquer enigma
sem nunca se revelar.

quinta-feira, dezembro 13, 2007

...

O dia é dobra do tempo
que se desdobra vivendo
o dia é sobra do tempo
numa viagem de ida.

O dia é cobra do tempo
quando nos mata de vida

Horas




Às vezes a hora torta
pela qual nunca se espera
deixa entrar cavalos sonsos
espelhos de água do céu
e espalha sóis pelo espaço
(tudo se cria e recria
em ligeiros horizontes
que alçam voos provisórios).

Às vezes a hora incerta
da qual não se sabe nada
deixa passar estilhaços
de momentos verdadeiros
e mentiras voadoras
passarinhos e abelhas
a escorrer mel e males.

A hora fanada
que passou num certo dia
desperta antigas muralhas
e ancestrais lêmures frios
ruminando no passado.

Às vezes as mariposas
que entram pelas janelas
são vampiros do luar
adormecendo donzelas
à beira de um lago escuro
que vai dar em uma gruta
toda inundada de mar

segunda-feira, dezembro 10, 2007

Rumo



As águas nos arrastam
a labirintos de anêmonas
desejos de navegar
e correntezas
impregnadas de histórias.

Na música da concha
a voz do mundo
o mar é um destino
e a ventania o voo
rumo à festa nas ilhas.

quinta-feira, dezembro 06, 2007

Tranças


Braços da noite futura são esteiros
entrando a meio enquanto o dia dura
no estuário costeiro da restinga
quase escura.

A noite desce sobre mar e areia
desliza sobre a praia adormecida
fios de lua tecidos nos cabelos
cobre a vida.

É pela trança do sol que a noite desce
em tramas transparentes de silêncio
onde a estação madura das estrelas
acontece.

quarta-feira, dezembro 05, 2007

O morto na rua

O morto na rua

Na rua suja
ao lado de uma agenda
esperaria alguém
quem sabe um encontro marcado.
Agora tem a resposta
a todas as perguntas
ou nunca mais?
O olhar paira abismado
a uma luz reflexa do céu
: parece livre e bem-aventurado.

A sua volta
circulam pensamentos
e temores
ideias hesitantes sobre agendas
e as mais perplexas
e desconexas
opiniões sobre horários.

segunda-feira, dezembro 03, 2007

Descoberta

Ruas desertas
o mundo se distancia como um barco.
Casas fechadas
fluidas
fachadas desgarradas pela noite.
Imenso é o céu sem jardins
os muros adormeceram
emudeceram calçadas
e tudo que se sabia da rotina
era mentira.

Fome

Jane Grav.




Desejo é enigma
com fome de galáxia.
O desejo corre pelas veias
sem medida
sempre a pedir
quero mais.

domingo, dezembro 02, 2007

Iquieto dia

Um som de ondas vinha da terra.
Logo cedo
entre folhagens o dia espionava
o argonauta na paisagem.

Brotaram folhas-de-flandres nas veredas.
Pelos caminhos de pedra a pique
o vento engendra escarpas
e dissonante espalha sem limite
vozes de açoite entre o capim-navalha.

sexta-feira, novembro 30, 2007

Noturno



A noite é sempre fuga
de um dia.
É quando os rios
lavam os lençóis
que a terra usou
e a lua espia.

Alheio a tudo
o amor perfuma a noite.