Às vezes a hora torta
pela qual nunca se espera
deixa entrar cavalos sonsos
espelhos de água do céu
e espalha sóis pelo espaço
(tudo se cria e recria
em ligeiros horizontes
que alçam voos provisórios).
Às vezes a hora incerta
da qual não se sabe nada
deixa passar estilhaços
de momentos verdadeiros
e mentiras voadoras
passarinhos e abelhas
a escorrer mel e males.
A hora fanada
que passou num certo dia
desperta antigas muralhas
e ancestrais lêmures frios
ruminando no passado.
Às vezes as mariposas
que entram pelas janelas
são vampiros do luar
adormecendo donzelas
à beira de um lago escuro
que vai dar em uma gruta
toda inundada de mar
Ruas desertas
o mundo se distancia como um barco.
Casas fechadas
fluidas
fachadas desgarradas pela noite.
Imenso é o céu sem jardins
os muros adormeceram
emudeceram calçadas
e tudo que se sabia da rotina
era mentira.
entre folhagens o dia espionava
o argonauta na paisagem.
Brotaram folhas-de-flandres nas veredas.
Pelos caminhos de pedra a pique
o vento engendra escarpas
e dissonante espalha sem limite
vozes de açoite entre o capim-navalha.