quarta-feira, dezembro 26, 2007

Moradas

Se nada resta
e tantas frases se dilaceram
numa penumbra de plânctons
será talvez melhor buscar ao sol
figuras pervertidas pela dor.

Será talvez
nem tão difícil assim
revisitar moradas
onde semblantes perdidos
de outro tempo
talvez esperem ainda.

Nada resta.
Melhor buscar um país
onde haja vida.

sábado, dezembro 22, 2007

Neon


M. Chagall

A gente era um contraste
vermelho vivo
no cinza dos asfaltos
lilases lusco-fuscos
todas as nostalgias do neon.

A gente se entornava pela rua
e transbordava alegria
quente o riso
um destempero solto na avenida
na mão
um saco de pipocas

quinta-feira, dezembro 20, 2007

Aranjuez


Foto Nora Borges.

À luz da tarde
as coisas do dia-a-dia
pertencem ao céu à terra
e aos olhos.

À luz dessa hora
uma cidade pode ser
poema provisório
ou Aranjuez.

domingo, dezembro 16, 2007

Naufrágio



Letras rasas embarcadas
no gesto de quem navega
dentro de uma garrafa
pertencem a qualquer um.

A mensagem de papel
atravessou a distância
destinada ao infinito
até que encalhou na praia
das ambições naufragadas.

sábado, dezembro 15, 2007

Bábuska



Dentro de mim me repito
menor que eu
maior que eu.

sexta-feira, dezembro 14, 2007

A surpresa nas palavras


René Magritte. Homem de costas e lua.

Uma nesga de futuro
se instala em cada palavra.
Desmente quem a decifra
devora quem a procura
desvenda qualquer enigma
sem nunca se revelar.

quinta-feira, dezembro 13, 2007

...

O dia é dobra do tempo
que se desdobra vivendo
o dia é sobra do tempo
numa viagem de ida.

O dia é cobra do tempo
quando nos mata de vida

Horas




Às vezes a hora torta
pela qual nunca se espera
deixa entrar cavalos sonsos
espelhos de água do céu
e espalha sóis pelo espaço
(tudo se cria e recria
em ligeiros horizontes
que alçam voos provisórios).

Às vezes a hora incerta
da qual não se sabe nada
deixa passar estilhaços
de momentos verdadeiros
e mentiras voadoras
passarinhos e abelhas
a escorrer mel e males.

A hora fanada
que passou num certo dia
desperta antigas muralhas
e ancestrais lêmures frios
ruminando no passado.

Às vezes as mariposas
que entram pelas janelas
são vampiros do luar
adormecendo donzelas
à beira de um lago escuro
que vai dar em uma gruta
toda inundada de mar

segunda-feira, dezembro 10, 2007

Rumo



As águas nos arrastam
a labirintos de anêmonas
desejos de navegar
e correntezas
impregnadas de histórias.

Na música da concha
a voz do mundo
o mar é um destino
e a ventania o voo
rumo à festa nas ilhas.

quinta-feira, dezembro 06, 2007

Tranças


Braços da noite futura são esteiros
entrando a meio enquanto o dia dura
no estuário costeiro da restinga
quase escura.

A noite desce sobre mar e areia
desliza sobre a praia adormecida
fios de lua tecidos nos cabelos
cobre a vida.

É pela trança do sol que a noite desce
em tramas transparentes de silêncio
onde a estação madura das estrelas
acontece.

quarta-feira, dezembro 05, 2007

O morto na rua

O morto na rua

Na rua suja
ao lado de uma agenda
esperaria alguém
quem sabe um encontro marcado.
Agora tem a resposta
a todas as perguntas
ou nunca mais?
O olhar paira abismado
a uma luz reflexa do céu
: parece livre e bem-aventurado.

A sua volta
circulam pensamentos
e temores
ideias hesitantes sobre agendas
e as mais perplexas
e desconexas
opiniões sobre horários.

segunda-feira, dezembro 03, 2007

Descoberta

Ruas desertas
o mundo se distancia como um barco.
Casas fechadas
fluidas
fachadas desgarradas pela noite.
Imenso é o céu sem jardins
os muros adormeceram
emudeceram calçadas
e tudo que se sabia da rotina
era mentira.

Fome

Jane Grav.




Desejo é enigma
com fome de galáxia.
O desejo corre pelas veias
sem medida
sempre a pedir
quero mais.

domingo, dezembro 02, 2007

Iquieto dia

Um som de ondas vinha da terra.
Logo cedo
entre folhagens o dia espionava
o argonauta na paisagem.

Brotaram folhas-de-flandres nas veredas.
Pelos caminhos de pedra a pique
o vento engendra escarpas
e dissonante espalha sem limite
vozes de açoite entre o capim-navalha.