sábado, julho 10, 2010

Inscrição

Lembrar alguém
descolado
irreverente
libertário
que desconhece
contente
protocolos
é quase ser feliz.

Amigo bem-amado
sempre capaz de voar
e rir e comover.

Tudo que diz e faz
fala de novos caminhos
e de paz
de um mundo delicioso
inexplicavelmente íntimo
e amoroso
como um ninho.

De que galáxia em flor
você voou?

dade amorim




Fred Matos no Poema-amigo

Fred Matos é um poeta de Salvador que só conheço da rede, mas que se faz querer bem pela sensibilidade de sua poesia, pelas palavras amenas e pela alegria de viver que transparece em tudo que escreve - mesmo quando não se trata de expressar o que há de mais alegre.

Escolhi a ilustração usada poir Fred no Nas horas e horas e meia, seu ótimo blog.

infância


escrevi este poema com os silêncios
que sobraram no sótão
onde
na infância
escondíamos as sementes
apanhadas nas frestas
dos paralelepípedos polidos
de uma rua úmida
coalhada de borboletas
sóis siameses
e anos luminosos
deliciosamente nossos
ossos nus nações limítrofes

e repito tal mantra um verso apenas:
nada é vão.


Fred Matos

quinta-feira, julho 08, 2010

Rastros


Viver é praia
rastros do mar
e tudo revela
a face dupla do tempo.

Vive-se entre guardados
objetos e fotos
letras de acender nomes
texturas entrelaçadas
cipós ao sol e ao vento.

Vêm de longe
os rastros
os desenhos.

Ninguém foi o mesmo
de agora.


dade amorim





Lou Vilela no Poema-amigo

Uma amiga relativamente recente, Lou é daquelas poetas que sabem dizer tudo em poucas palavras e muita harmonia. Os poemas de Lou são sempre um prazer de leitura, música e eloquência. E além de tudo, desconfio que Lou é uma dessas pessoas de coração de ouro maciço.

Pedaço mastigado

Quando me defino
sou  passado
- rio percorrido,
pedaço mastigado.

No hoje transbordo,
rumino e me estranho.

Lou Vilela


segunda-feira, julho 05, 2010

Habitare


Há muito tempo estão conosco os móveis livros
e tantas coisas
roçando nossas vidas sob o desgaste do teto que reflete
a luz da manhã no jardim.

Há quanto tempo nos protegemos de sol e chuva e dos ventos do estio
por trás das mesmas janelas de cortinas claras
que nos defendem da rua
a resguardar a sala cor de sépia.

Há tanto contornamos a curva das escadas
sabendo cores e penumbras e paisagens do quarto mais acima
e conversamos sobre coisas sem lugar ou utilidade
que vez ou outra esquecemos como corpos mortos numa prateleira
até que se tornem de novo uma pequena surpresa e toquem nossos lábios
com uma espécie branda de sorriso.

E o que são os anos para nós
que a cada dia lemos os jornais na rede da varanda
e ainda reconhecemos os lugares das coisas
que há muito se extinguiram?

 


dade amorim
Poema reeditado.


 O Poema-amigo de hoje vem de A Barca dos Amantes, um blog delicioso e bonito, onde reina nosso amigo Leonardo B. Os poemas de Leonardo são daquele tipo com que o leitor se identifica facilmente, daqueles que levam a gente a voltar ao blog, para não perder nenhuma das novidades que a criatividade do poeta está sempre engendrando. 


Escopo em construção

Deixa que desabe esse telhado,
Este pedaço de vida mal escorado
Da casa quase em ruínas,
O meu corpo que aguarda essa água
Fértil, que se derrama
Por todas as artérias deste tronco frágil,
Derradeira porção abcisa neste edifício
Quase desmoronado.

Derradeiro este plano inclinado,
Sem vigas ou caibros,
Que a sustentem na horizontal linha,
Pedra cimento amianto,
De onde desabam estas telhas, este telhado
Pelo redor o tempo que de há
Tanto anunciado, pelo chão da terra vã
Haverá de cair.

Derradeiro o vento que toma esta casa
Abandonada, este corpo que não conhece
Fim. Neste vegetal sangue que se renova,
Acomodado caos, gerado humano,
Qual espírito que tudo toma, parece,
Como um anjo desprovido
De voo, sereno argumento,
De apenas uma asa.

Deixa este telhado em mim desabar,
E com ele, do fim todos os fins,
Onde o húmus de vida se haverá de renovar.
Possa cair a vida onde tudo se renova
Tudo se ergue, tudo se levanta
E segue, tão vazio tão cheio
De vida, onde a mais delicada,
Onde a mais árdua palavra se prova.

Leonardo B.



sexta-feira, julho 02, 2010

Quintal

Mas é aqui
: descemos ao mais tenro
e não se volta à tona
depois disso.

Aqui
os quintais são cinzentos
e se ouvem outros sons
que não o canto de estimação
dos pássaros
dourados.

Quando se consegue chegar a esse fundo
de quintal e poeira
e escadaria
o tempo nem mais importa a nossos pés.

O tempo
é um registro desigual
nem armadilha
nem prêmio
e é sem volta.


dade amorim
poema reeditado






Poema-amigo com Lalo Arias

Lalo é um poeta de imagens sugestivas, que levam a gente por seus caminhos como se alguém nos levasse pela mão. Um poeta de produção numerosa, intensa e - coisa rara - de qualidade homogeneamente muito boa.


Apenas caminho

sonho que estou dormindo
encolhido
minhas mãos
estão entre as pernas
é uma outra vida
- como dizem

não, não durmo
apenas caminho
olho novamente
para as pontas dos pés
é só uma tarde a mais
quase caindo

outra vez o azul
me pertence
sou um homem
sempre fui um homem
forte
mas frágil
e se pudesse voltaria
com as desculpas necessárias
por todos meus erros
mesmo que demorassem
uma vida inteira
mais uma
e outra vida ainda
continuo andando
voltado para dentro
da noite que se aproxima


Lalo Arias
(junho, 2010)