sexta-feira, julho 26, 2013

Romance



Impossível imaginar que alguém
pudesse lançar raízes secretas
nas veias de outra pessoa
e começasse a falar por sua boca
ver o mundo de seus olhos
e plantasse insuspeitado uma semente
do mais ineludível dos desejos
em sua vontade
até que
todo brotado de rosas e raízes
hera e jasmins monitorando o hálito
ele investisse a vida
os gestos penhorados
e emaranhasse o próprio enleio às pernas dela
pelo tempo dos espelhos combinados.

quinta-feira, julho 18, 2013

Escolha





Caminho descuidada
entre teus gestos.
Por teu amor cheguei
além de meus limites
e me esvaí de mim.
Tenho vivido além
de todas as instâncias
bem mais do que
a vida pode oferecer.
E quando me procuro
já não sou eu
mas essa face
plasmada pela escolha.

terça-feira, julho 16, 2013

Presente do vento




Gigante de um conto de fadas
o vento nos apagou
as luzes todas da casa
e acendeu pela janela
uma noite enluarada.

quinta-feira, julho 11, 2013

Incertezas





O vento vem desfolhar
as simetrias do mundo
e o tempo que não dorme
tece fios
num labirinto de esperas.

Ela aprendeu a enganar
o vento e as horas
: criou teares
e agora
veste auroras
e inventa flores
sem nome
nos momentos
menos esperados.

sexta-feira, julho 05, 2013

Desamparo




O tempo
– nau a se afastar do cais
rumo ao desconhecido –
deixa atracado o bote da memória
sem âncora nem bússola.

quarta-feira, julho 03, 2013

Pele

                                                                                  (...)
                                                                                   daria todas as metáforas   
                                                                                   em troca de uma palavra
                                                                                   arrancada de meu peito como uma
                                                                                   costela
                                                                                   por uma palavra
                                                                                   contida dentro dos limites
                                                                                   da minha pele
                                                                                   (...)

                                                                                    Zbigniew Herbert 

Às vezes durante dias não dizia nada
embaraçada em pensamentos velozes
emaranhados como galhos velhos de cajueiro
ou voando concêntricos em torno
de alguma coisa que não conseguia descobrir
como dizer
com que palavras.
Às vezes falava coisas sem rumo definido
coisas do dia-a-dia - o carteiro as compras a cozinha
como se contornasse o território cego
da coisa que não dizia
contida dentro da pele
que não sua
e não respira.
                                                                                   

segunda-feira, julho 01, 2013

Bar



Como se o som dos passos na calçada
fosse apagando as lâmpadas uma a uma
busca refúgio
um bar desconhecido
onde as pessoas não se voltem
à vista de um estranho.