terça-feira, julho 08, 2008

Matinal




Silencioso
o mundo escapa pelos jornais
em recortes de assombro
medos impressos
e imperceptíveis filetes
de sangue alheio.

À mesa do café
bebo desolações
com zero cal.

sexta-feira, julho 04, 2008

Roda


Imagem Wolfgang Paalen.

A vida que se vive
e a do desejo
brincam de roda.

Terceira pessoa
a realidade
fica no meio.

segunda-feira, junho 30, 2008

Arca

A nau do sono recolhe fugitivos
como se fosse a arca de Noé.

E se adormecem felizes os amantes
e os filhos com seus pais
acalentados em noites de bonança
contra a corrente dormem
solitários
aqueles que sofrem de fome
ou desespero.

O sono nos iguala pelo sonho
porque até no dilúvio deus sabe o que faz
e navegamos todos
rumo ao monte Ararat.

 

sexta-feira, junho 27, 2008

Banco de dados





O banco de dados do mundo
começa com o arquivo da gênese
escorrendo entre os dedos do Senhor.

Todo homem tem seu tempo
mas nem todos espremem seu suco
até o fim
– resta sempre um arquivo morto
ou quase.

Os ônibus têm mais de um século
mas só nos novecentos
os homens começaram a pendurar-se nas janelas
(e as mulheres só no carnaval).

Mulheres preferem olhar de outras janelas
e estão sempre buscando alguma coisa
: maçãs, serpentes, vestidos, homens extraviados
pais e filhos mortos
serenamente vivos em suas fotos
até que nasçam lápides novas
datadas de algum dia.

Enquanto se descobrem as alegrias
da tecnologia nossa
de cada dia
o pasto cresce nas portas
do imenso casarão
onde habitam os que até agora
conseguiram escapar.

quinta-feira, junho 26, 2008

...


Nas ruas do planeta louro e azul
creio na vida
:
o melhor do presente ignora o futuro.

domingo, junho 22, 2008

Hoje

Hoje
a música me atinge com suas dores
e fúrias

as alegrias sonsas do amor
nesga de lua a entrar pela janela entreaberta.

sábado, junho 21, 2008

...


neste momento
toda tristeza que a vida pode
se deita sobre mim
como quem ama

terça-feira, junho 17, 2008

Noites



É fria a solidão que me desbasta
puxo o edredom
porquanto a noite é vasta.

sexta-feira, junho 13, 2008

Olhar

Sobre a cama vazia
resta um pijama dobrado
e o olhar das conjeturas.

terça-feira, junho 10, 2008

Mosaico




Imagem Johns. Summer. 1985.



Quem faz algum tipo de arte
expõe peças de mosaico
(um vinho irresistível
a droga traiçoeira
capaz de pôr num pedestal de rocha
um deus de lama).

A grande incógnita
nos vem sempre aos pedaços.

quinta-feira, junho 05, 2008

Lava morna

Esse vazio no meio da vida
por onde correm palavras apagadas
é um céu escuro onde não amanhece
um dia oculto entre todos os outros
quando nada acontece que não seja
a morna lava extinta
que um dia há de surpreender a todos
com suas erupções inesperadas.

terça-feira, junho 03, 2008

Longas tardes de outono


Fecho as cortinas
isolo o mundo
numa esfera invisível
mais fria a cada instante.

A experiência de ser é quase trégua
entre os ruídos amigos do relógio
e o despertar discreto de meu gato.

Mas o silêncio grita na memória
e como disse Leminski
não adianta fugir
que viver não tem cura.

segunda-feira, junho 02, 2008

...



Em aposentos da memória
jardins de líquens antigos
invadem o chão de agora.

domingo, junho 01, 2008

...

Grassa lá fora um sol enganador
o mundo é uma quimera.

Outono
e o sol mascara suas sombras
como se entrasse hoje a primavera.

sábado, maio 31, 2008

Constelações de outono



Nas imagens da janela
ventos frios
e ecos avulsos
de vozes inseguras.
Presenças apressadas e distantes
pelas calçadas
cenários desenhados
para a muda constelação das outras vidas
no cosmos dos condomínios outonais.

sexta-feira, maio 30, 2008

Registro

Acordou em agosto
sentou à mesa junto da janela
com a xícara de café
o líquido quente na língua
a ardência no peito.
A sala era uma perspectiva acinzentada
como se a tivessem pintado durante a noite.

Levantou de repente
desceu correndo os degraus
e seguiu pela calçada cumprimentando quem passava
como se conhecesse cada um há muito tempo
pensando – melhor assim –
e sorria ao grupo de crianças de uniforme
e à velha senhora passeando um beagle barrigudo
não muito mais novo que ela.

Aguentou o sorriso duas esquinas e três passos.
Caiu entre as pernas dos transeuntes que corriam
para não perder a hora do trabalho.

quinta-feira, maio 22, 2008

Necrológio para J.T.



Vivia em busca de alguém
para mudar o rumo da vida sempre igual.
Podia ter sido mesmo um ser fantástico em trajes espantosos
que revelasse enfim o sentido da existência
transcendência ou razão
e os melhores macetes da bolsa de valores.

Queria uma casa onde morasse mesmo estando longe
e um sonho esclarecedor
sobre como a ciência varreria do planeta
a morte e suas metáforas.

Queria garantir um sono sem surpresas
e mais que tudo esperava encontrar o amor eterno.

Acreditava num talento oculto
que lhe abriria as portas decisivas na hora certa
ora passada.

segunda-feira, maio 19, 2008

Poeira



As pegadas do tempo
vão cada vez mais longe
sobre a pele do corpo
sobre a pele da terra.

Pensar
é a poeira que o tempo levanta
para cobrir as verdades
que nunca vamos entender.

quinta-feira, maio 15, 2008

Dia

Ao fim do dia
como quem não espera mais da vida
fecho nos olhos lembranças movimentos
e o próprio vento agora silencia.

Tudo que peço da noite é um longo sono
que me dissolva nesse quarto escuro
onde as imagens se perdem nas paredes
como fantasmas através dos muros.

Nada porém será como eu queria
: o sono se despedaça em largos voos
e o fato consumado desse dia
não foge mas se repete pela noite.

sexta-feira, maio 09, 2008

Retrato


Foto Margarida Delgado.


O dia passou veloz
trouxe a janela de maio
e uma voz antiga como a brisa.

Guardei o dia
no álbum dos retratos mais amados.

segunda-feira, maio 05, 2008

Andante



O horizonte cresce nos limites
o vento quebra os passos
e o mar se apressa.

Dentro da concha
o andante se transforma num alegro.

sábado, maio 03, 2008

Visita ao porão

Encontro em poucos metros
o duplo do passado
que nem mesmo buscava
numa fusão de cores
e sons.
Nada depende de mim
no caos intenso de rostos e visões
da vida que repasso.
Tudo me escapa
e me pergunto
que potente vontade encaixou as peças
e o estranhamento
no meio do caminho
e se foi dado a alguém
escolher sua vida.

Nada se explica
além do obscuro desejo que nos move
e arrasta seus acréscimos.

Revejo os dias lugares
as casas e pessoas
não há mais nada.
Não existem sobras
e o passo com que andei
era de outro
não meu.