quarta-feira, outubro 29, 2008

Paisagem




Muro desfeito
à beira dágua em círculos
concêntrico
ponteiro dos segundos.

Muro calçado de terra
sustenta a asfixia de suas flores
e escuta
mudo
o tempo voo do inseto
soco sem luva
ferida aberta à tona.

domingo, outubro 26, 2008

Encontro



De longe na tarde escura
teve a impressão de que o corpo dele
se desfazia em neblina.

A imagem se apagava
em sístoles
na esquina da diástole marcada.

terça-feira, outubro 14, 2008

Espuma e sal

Segredo de espuma e sal
saudade que vem de longe
e arde na pele.

Ainda não tem nome
e já consente
no instante que vem chegando.

A noite todo dia
é sem aviso.

quinta-feira, outubro 09, 2008

Manhã 3



Toda manhã traz uma flecha líquida
de luz sem medo.

Toda manhã
um segredo se extravia
numa janela
mais alta que o sono.

Toda manhã reabre feridas
expondo o corpo do dia
sobre a cama.

terça-feira, outubro 07, 2008

Ocidente

Ocidente apaziguado
o sol da meia-tarde
no bolso da montanha.

O sol da tarde suspira
todos os dias
a terra doma o sol.

 

sábado, outubro 04, 2008

Defensiva



Escondia a carne tenra
dentro de uma pele dura
de lagosta.

sábado, setembro 27, 2008

Manhã 2




São densas as manhãs
antes da vida
quando se emerge da
gruta no
jogo da memória.

A vala cega do sono desnivela
cada história
que recomeça à mesa do café.

terça-feira, setembro 23, 2008

Voo

Abri a janela
e o pequeno silêncio
voou
diluído em luz.

domingo, setembro 21, 2008

Sem saída


Charles Sheeler. Janelas.

No ponto de ônibus
a gente olha as revistas
da banca
e dos grafites escorre esta cidade
enquanto
a furadeira tritura uma energia
suada ao sol.
 
Os ônibus são animais em extinção
noutro hemisfério
mas aqui
bebemos mistérios de óleo diesel.

A lua em marcha vai sumir do céu
levando em suas pontas
esgarçado
o território da estação mais fértil
sem que a cidade
consiga adormecer.