domingo, novembro 15, 2009

Fumaça







 

Quando o medo abre a janela
e se esconde em meu armário
pego a bolsa
fecho a porta
saio pra fazer as unhas.

Sozinho em casa
o medo vira fumaça.

 

domingo, novembro 08, 2009

Sextina



Ao fim da trilha
cento e oitenta graus de pedra
mármore opalescente
nos olhos tanta luz escaneada
a grama desdobrada em latitude
e sob o sol quase um crime.

À sombra quente da pedra
sobre a grama escaneada
depois de voltar à trilha
o mármore em si sem crime
mas ainda opalescente
e as prateleiras do mundo em latitude.

O sol era autor do crime
e não a pedra.
O olhar conduzia a trilha
e refletia luz escaneada
a densidade cega em latitude
e a grama de extensão opalescente.

Voltou pela sombra à trilha
perseguindo a latitude
agora por trás do crime
costas voltadas à luz opalescente
quase cegueira de pedra
vendo a vida escaneada.

Caminhar depois do crime
era mais que opalescente
mais que lembrança de pedra
a visão escaneada
replicava a latitude
em personagens na trilha.

O ar mais leve sem a pedra
por entre as sebes da trilha
era quase um outro crime
o mundo desvendado opalescente
lancetava em latitude
sua carne escaneada.

terça-feira, novembro 03, 2009

Encontro

 

Inesperado encontro sem aviso
e no entanto
como se fosse previsto
e já sabido desde sempre
na estação de metrô
onde se marcam encontros
tantas vezes.

Inesperado
teve gosto
de coisa que se deseja
sem saber.

sexta-feira, outubro 02, 2009

Calçadão


Tão leve
vestida de éter
não sente o vento
frio da noite

A noite magra
vaga estendida
embaixo da ponte.

Cabelo dança
rumo do mar
raízes firmes
no calçadão.

Sem flores
poema nas unhas
inventa
que despetala.

A noite é sempre maior
que os horizontes

ondeia nos lábios
paisagem rubra.

domingo, setembro 27, 2009

Vincent





Van Gogh. Thatched Cottages at Cordeville.



O mundo se retorce
inconcluído
e estala tantas vezes
na falta de sentido
de viver tanto e tão
intenso
sem nunca parar de morrer.

Os vídeos são pesquisas onde
o ator de barba ruiva recria
a obra criada.

Nada o termina ou redime
do alto dos telhados
os corvos negros ao sol
em busca de carniça
os camponeses de rostos tão iguais
sobre ouro e trigo.

O espaço de Van Gogh
não dava espaço a Vincent.

No céu convulso
pastos de estrelas ardendo de girar
a noite expõe sua resenha
do tormento
e sempre o recomeço.

segunda-feira, setembro 21, 2009

A falta




Que pena andar em calçadas conhecidas e nem ao menos chegar ao arvoredo na pracinha onde há mais sombra e os insetos criam um ruído de rampa no cascalho liso a deslizar de leve e o que se espera é sempre o não falado a estrutura flexível do desejo e alternativas ao que não pode ser mais que o hálito ou o gesto do momento.

Ao menos nessa noite pode haver a assimetria de um espaço novo e na cidade algum lugar marcado e indelével. Como se fosse uma pegada no cimento fresco para se passar sem comentários num leve agitar de asas ou o sobressalto de lembrar na hora do café e ter certeza enfim de alguma coisa, mesmo nunca dita, coisa infiltrada e aspergida num lugar transportado para a vida.

 

segunda-feira, setembro 14, 2009

Solar


 

 

As palavras ainda roçam o silêncio
quando se abre em nós essa clareira
inquieta do desejo
onde flores de urgência desabrocham
e tudo muda do que antes se dizia
– a boca em sede
a pele de água morna
e as asas ofegando
guiando as mãos vestidas de verão
até que o sangue se transforme
em sol
e as veias nos cintilem sob a pele.

 

sexta-feira, setembro 11, 2009

Rio acima

 

Temos os olhos cheios
das coisas que não vemos.

A guerra de outro hemisfério
o rio de água apagada
a morte em nossos barrancos
lavadeiras encurvadas
e a flor carnívora do desarrimo.

Temos ouvidos prontos a esquecer
no escuro
as baleias retalhadas
o barco vazio à espera
predadores de mesa farta e
rio acima
nas casas mornas da margem
as mães e suas crianças mal nascidas.

De tanto ver nas fotos
a pele grossa lavrada pela terra
as nossas mãos perderam sua destreza.