quarta-feira, maio 09, 2007

Retratos




Lembra o vestido de linho
daquele dia
sozinhos na varanda?
Lembra da luz
última luz da tarde
dom do estio
sobre o tapete da sala?

Lembra a manhã daquele outono frio
o vento pela praia
nossas festas
noites de junho
os dias de Veneza?

Lembra a música das conchas
o horizonte
as frases do segredo
a delícia da pele
– lembra?

Lembra que a vida
inda floresce à tarde na varanda
e enche de asas o ar que respiramos.
Nosso desejo é como um andarilho
que nada sabe do tempo
e nunca esquece.

terça-feira, maio 08, 2007

Outono

Fez hoje uma tarde frágil
clandestina
pelo ar
a luz do outono
úmida e leve.

Me debrucei no muro
pensei colinas
azuis
e a mim me devolvi
de mim lembrada.

segunda-feira, maio 07, 2007

Gaivota


Rui Elias. Rota de colisão.

Voando ao vento
sabe seu rumo
inscrito em cada pena.

domingo, maio 06, 2007

Vitral



A compoteira que foi de vovó
já não existe
: agora é cacos azuis.
Minha tia predileta
que me ensinou tanta história
de repente me faltou.
Meu primeiro namorado
casou e sumiu no mundo
e me casei com o segundo.

Perdi as cores mais vivas
o colo quente e as cantigas
e nunca mais vou ser virgem.

O que se perde em história
vira vitral na memória
o saldo da vida inteira
vale mais que a compoteira
a ternura que se sente
ensina que o amor existe
e já dizia Vinicius
docemente
: é melhor ser alegre
que ser triste.

sábado, maio 05, 2007

Manhã de inverno



O que te falta
impele
motivos novos
faces desconhecidas
e tudo te enamora.

O que não foi
ilumina teus caminhos.
O amor que não deu certo
e já não sangra
alimenta a vida que te espera.

A vida que te espera
além da porta
será agora
a mais bela manhã de inverno ao sol.

sexta-feira, maio 04, 2007

Das dores


E. Schiele. 1918.


Doem as previsões
o inacabado
e o cortejo dos sonhos sem futuro.
Doem medos persistentes
e a solidão
minha gêmea.

Doem os chamados que não escutei.

Dói como raiz desenterrada
todo poder injusto
na servidão dos motivos.

Doem as interdições sem rosto
lobotomia incruenta do desejo.

quinta-feira, maio 03, 2007

Prisma




Medula, sangue e alento
o teu momento irisa meus sentidos.

Serei se tu quiseres
tua véspera
um exercício de anjo
e a terra onde cravar tua raiz.

quarta-feira, maio 02, 2007

Finito


E. Munch.

Perto de um cais noturno, treva espessa,
conto as estrelas sozinhas e me esqueço
de quanto sou também sozinha e triste
desde semanas atrás, quando partiste.

Conto as estrelas caladas e o silêncio
contém a escuridão e é como incenso
subindo em homenagem aos que sofrem
cantando um mudo canto sem estrofes.

E nesse cais escuro debruçada
olho o balanço sem fim da água apagada
pensando vagamente no romance,

jogo finito no primeiro lance,
que foi como uma trova ou uma chance
de renovar a vida e deu em nada.

domingo, abril 29, 2007

Violetas


Lá fora chove
e nada do que digo
é o que queria dizer.

Estou imóvel
e tenho a pressa de uma presa
ante o felino
eternamente a preparar
o bote sem desejo
e a agonia poreja das paredes.

Asas coladas
voltamos ao casulo
viscosos seres
unidos no tormento
de um momento que não vai voltar.

Além dessas janelas
a vida comemora seus enigmas
quatro estações e luas
e o vento vibra
por suas ruas e praças.

Em nosso espaço
somos peso de carne no açougue
sem mais surpresas
repete-se o que não houve
e nos reflete
em duas dimensões
– silêncio e chuva.

Apodrecemos como violetas
o caule a desfazer-se.

sábado, abril 28, 2007

Dia




Tortuosamente belo
o dia partido ao meio.
Metade sol
outra lua.
Metade daquele dia
tortuosamente belo
foi amor
outra
amargura.

sexta-feira, abril 27, 2007

Pipoca

A gente era um contraste
vermelho vivo
no cinza dos asfaltos
lilases lusco-fuscos
todas as nostalgias do néon.

A gente se entornava pela rua
e transbordava alegria

um destempero solto na avenida
na mão
um saco de pipocas.

quarta-feira, abril 25, 2007

Madrugada



Te conheci bem antes dessa manhã
quando te inventei
te trago há tanto tempo!
A tua identidade é um pouco a minha,
teu pensamento deita em meu repouso.

Te conheci bem antes
e te reconhecer
é como andar de madrugada pelo campo.

segunda-feira, abril 23, 2007

Joana


Foto Charles Scheiner.

É tarde.
Desencontrei-me dos outros
dos amigos
– tanta amizade desfeita pela estrada
e logo comprei roupas novas
mudei de casa, tive filhos
e viajei pelo mundo
sem nunca mais ouvir suas vozes.

Talvez seja tarde agora.

Mas penso em tantas faces
tantos nomes
e esta noite mesmo sonhei com a Joana
que há dez anos perdi de vista
: falava ao telefone
aquele mesmo jeito manso que lhe conheci
fitando o chão distraída.

Era ainda a mesma Joana
tímida, ingênua, contida e delicada

– e pensar que sempre vemos tanto os outros
sob suspeitas as mais variadas!

Joana continua
a existir dentro de cada um
até de mim
que muito bem conheço minha malícia.

quarta-feira, abril 18, 2007

Agenda

Convivo com o futuro
juntando meus pedaços dispersados
por um espaço que brinca de tempo.
Aa folha branca-cega não me avisa
das armadilhas
dos rostos
do brinco que usarei na quinta-feira
nem do vazio à espera.

Jogo com minha trena desmarcada
medindo o imensurável
dos desejos.

O vir-a-ser
o reencontro
o medo
e os impulsos se escondem
e escorrem sem retorno
de minha agenda encapada
de esperança preta.

domingo, abril 15, 2007

Intenções


Pablo Picasso.

À mesa do café
gestos de recomeço nos enganam
: só intenções povoam nossas horas.

sábado, abril 14, 2007

Palavras são legendas que é preciso ler




A nossa volta
transitam as palavras
e muitas delas
dizem muito
do que ainda
não soubemos aprender.

O mundo chega estampado
em rostos livros e
jornais
juízos desencontrados
memórias
e esquecimentos.

Faltam as legendas
como nos filmes da tevê.

quinta-feira, abril 12, 2007

Vozes



Ouço uma estrelaa cantar
em alguma ilha deserta
que vagamente destila
sua luz gregoriana.

Ouço uma estrela cigana
que se desfaz quando brilha e
deixa um rastro cadente.

Escuto uma estrela insone.

A voz sirena de longe
ilumina displicente
vesperais monges rezando
no claustro de seu convento.

Amena canta essa estrela
modulando a voz do vento.

quarta-feira, abril 11, 2007

Maio



Se sou feliz
dispenso o calendário
se for preciso
reinvento maio.

terça-feira, abril 10, 2007

Escolha


Imagem Egon Schiele.

Caminho descuidada
entre teus gestos.
Por teu amor cheguei
além de meus limites
e me esvaí de mim.
Tenho vivido além
de todas as instâncias
bem mais do que
a vida pode oferecer.
E quando me procuro
já não sou eu
mas essa face
plasmada pela escolha.

Esmorecer


Desenho Robert McIntosh.

A cada passo
a estrada se transforma
entorno áspero
despenhadeiro.

Quero sorrir contigo
e entristeço
e o ia te dizer
me silencia.