quarta-feira, julho 03, 2013

Pele

                                                                                  (...)
                                                                                   daria todas as metáforas   
                                                                                   em troca de uma palavra
                                                                                   arrancada de meu peito como uma
                                                                                   costela
                                                                                   por uma palavra
                                                                                   contida dentro dos limites
                                                                                   da minha pele
                                                                                   (...)

                                                                                    Zbigniew Herbert 

Às vezes durante dias não dizia nada
embaraçada em pensamentos velozes
emaranhados como galhos velhos de cajueiro
ou voando concêntricos em torno
de alguma coisa que não conseguia descobrir
como dizer
com que palavras.
Às vezes falava coisas sem rumo definido
coisas do dia-a-dia - o carteiro as compras a cozinha
como se contornasse o território cego
da coisa que não dizia
contida dentro da pele
que não sua
e não respira.
                                                                                   

segunda-feira, julho 01, 2013

Bar



Como se o som dos passos na calçada
fosse apagando as lâmpadas uma a uma
busca refúgio
um bar desconhecido
onde as pessoas não se voltem
à vista de um estranho.

sexta-feira, junho 28, 2013

outono



o outono entrou pelo verão a dentro
como se o calor perdesse o alento
- o sol cansou de ser o centro

terça-feira, junho 25, 2013

Corpo e cidade




 


O corpo entregue à cidade
estreia a cada instante
sensações de luz e sombra
e ruas conjugadas pelo sol
poeira e fumaça.
O corpo continente
treme de asfalto e trânsito
e de um desejo de encontro
e águas secretas.

sexta-feira, junho 21, 2013

sinais




talvez tantos sinais da cruz
feitos sobre meu peito
meus cabelos
expliquem essa dor subterrânea
presente em todos os chãos onde pisei

talvez tantos temores
olhares que se alongaram sobre o tempo
e nunca mais se apagaram da memória
possam explicar meus medos
e a impossível alegria solta
como no campo um filhote desgarrado

tenho talvez a sina do degredo
e tantas vezes não ser como queria
e tantas vezes
ter desejado o riso como um sol
e ter somente alcançado a lua fria
antes do alvorecer

terça-feira, junho 18, 2013

Momento




A chuva se recria
nas folhas da amendoeira
canta
na franja dos telhados
a madrugada líquida que chega.

É tanto o que independe
de nós
aos olhos mais atentos
– as luzes que vacilam
e nada saberemos dos bichos escondidos
no escuro mais escuro –
nada
de tudo que subsiste
sem que os sentidos registrem.

De todos os sinais
sobram frações
segundos, séculos
girando em outra esfera.

Se a pele é fiel ao tempo
o vento embala
ou destrói
e a chuva é mais que suas nuvens.

Olhando pela vidraça a sedução do tempo
quem sabe o mundo que iremos encontrar
depois do sono.
Ainda assim o momento é mais forte
e o esquecimento nos salva.

sexta-feira, junho 14, 2013



O mar do visionário

                             Para Debussy


O mar fala de penínsulas
que há muito o tempo desmanchou
tocados pelas aves pela espuma
as algas retorcidas
e algumas ilhas sem nome
recolhidas
a uma velha praia desbotada.
O vento vem sonhando
voz de pérolas
de pacientes espumas
e alimento de peixes e sereias.
Os temas que sonha o mar
nunca se acabam
ainda longe de ilhas e areias
como pranto
decantado em salinas desatadas
corais que as ondas cobrem
e serpeiam
em cristas sempre novas
ou explosões de fúria e som
de dor
confins, traições milenares
catedrais
e sinos
melodias
entoando vozes submersas
ou náufragos
em plânctons conversos.