quarta-feira, fevereiro 15, 2012

As águas


Do quarto andar
acompanho notícias
águas que vêm e vão
para bem longe
pelo útero escuro da rua.
O que cabe em minha agenda
é um esqueleto falso
fabricado às pressas
num dia sem pauta
cheio das linhas tortas
por onde ninguém
terá a coragem de dizer
que Deus escreve (direito?)
o adverso.
Alguma espécie de entendimento
deve ser possível
mas os bueiros engoliram
tanta coisa
além de um embrião
e um caderno de capa cinza-pérola
– um organismo vivo é outra coisa.
Meus sensores rugem à passagem
de relâmpagos retardatários
luz do rompimento
no limite de onde a treva desenha
o outro lado da rua
e me chama para longe
da cumplicidade das máquinas.

Lá se encontrará um canto secreto

um lugar que com certeza
existe

e se deseja 
durante a vida inteira.


segunda-feira, fevereiro 13, 2012

Meditação



Sofro o que posso
nem menos nem mais.
O sonho é para sempre
a dor tem fim
e o amor dita consolos de saudade.
Aos poucos
tudo se coagula em sombra
e o tempo tece
instantes sem limite.
Todo mortal corre o risco da chama
– a luz aquece
enquanto não se apaga.
Viver é a proposta
grande o enigma.
Talvez um dia
chegue uma resposta
a dádiva que vem da ventania.

segunda-feira, fevereiro 06, 2012

Iluminações



Há uma rachadura em todas as coisas.
É por ela que a luz entra.
                                    Leonard Cohen




A luz de dentro dos olhos
vem do ar que se respira.

Tudo que existe
até os pensamentos mais soturnos
sobrevive da luz que aspira
– um toque do pintor em rua escura
os vagalumes fugindo e renascendo
à luz do vento.

Vem pelas veias do céu
em anos-luz de linhas desmedidas
tecendo teias.
Procura pedras da terra
vestes rasgadas
na guerra os corpos feridos.
A luz é do que corrompe ou regenera
não salva – só ilumina
não planta
germina e cresce.

Tudo que brilha é desdobramento
e é o sangue a luz do corpo.


Poema reeditado




quinta-feira, fevereiro 02, 2012

Romance



Impossível imaginar que alguém
pudesse lançar raízes secretas
nas veias de outra pessoa
e começasse a falar por sua boca
ver o mundo por seus olhos
e plantasse insuspeitado uma semente
do mais invencível dos desejos
em sua vontade
até que
todo brotado de rosas e raízes
de hera e jasmim monitorando o hálito
ele investisse a vida
os gestos penhorados
e emaranhasse o próprio enleio às pernas dela
pelo tempo dos espelhos combinados.