Do quarto andar
acompanho notícias
águas que vêm e vão
para bem longe
águas que vêm e vão
para bem longe
pelo útero escuro da rua.
O que cabe em minha agenda
é um esqueleto falso
fabricado às pressas
num dia sem pauta
cheio das linhas tortas
por onde ninguém
terá a coragem de dizer
que Deus escreve (direito?)
o adverso.
Alguma espécie de entendimento
deve ser possível
mas os bueiros engoliram
tanta coisa
além de um embrião
e um caderno de capa cinza-pérola
– um organismo vivo é outra coisa.
Meus sensores rugem à passagem
de relâmpagos retardatários
luz do rompimento
no limite de onde a treva desenha
o outro lado da rua
e me chama para longe
da cumplicidade das máquinas.
Lá se encontrará um canto secreto
um lugar que com certeza
existe
e se deseja
durante a vida inteira.