sábado, agosto 15, 2009

Domésticas



Imagem sem menção de autor.



I
A roupa no varal entrega ao vento
a desbragada candura dos botões
e há uma canção de luz em andamento.

II
Além da mesa do almoço
o gato apaziguado nos espia.
Na tarde mansamente inaugurada
reaparecem as flores do futuro
: dentro de nós o vento se anuncia.

III
O vento na janela subverte
o quarto de dormir nesse
bailado insurreto de cortinas.

Nos muros do jardim as vozes breves
em contraponto de intenções minúsculas

pensa por nós o vento e imprecatada
a lava fria da lua nos contempla.

Varrido o chão da noite
o tempo recrudesce em nossa cama.

IV
O pássaro no mundo de suas grades
é ele mesmo quadrado diminuto
afeito ao voo curto
e rumo ao céu
desfere a fantasia de seu canto.

3 comentários:

Amélia disse...

Gosto das suas dom+esticas, amiga!

antonior disse...

Neste post se desfere uma visão atmosférica e contemplativa de cor e tempo a passar ao lado deste tempo, rumo ao leitor. Em todo o o blog a poesia voa e ondula, envolvendo as imagens...

Um abraço e até breve.

P.S. - Li duas vezes o poema "galeria" de que gostei especialmente.

Analuka disse...

Querida Adelaide! Como disseste que eu poderia, publiquei este teu lindo poema lá em meu blog. Agradeço e fico feliz em partilhar tuas palavras aladas com outros amigos amantes de poesia. Beijinhos azuis!