domingo, dezembro 06, 2009

Os párias

Todo anjo é terrível
Rainer Maria Rilke
 

Foto Rogério Reis


 


Os anjos da cidade vêm da esquina
de praças e barrancos
surgem do chão de surpresa
já sem asas
estão nos botequins
dormem nos bancos de praça
nas calçadas.

Sofrem de fome em bandos
sem ter aonde levar
seu cheiro
sua revolta.

Os anjos da cidade nos sitiam
deuses sem brilho
feitos de folhas secas e unhas.
São flébeis e nos avisam
com os olhos fugidios
:
o inimigo vem de qualquer lado.

Às vezes velam os que
por suas mãos
restaram mortos
e riem
diante desses anjos desfolhados.

Um anjo desossado ingressa às vezes
no sangue de quem passa
e deita em suas horas e adormece
de um sono escuro
opaco de lembranças.

Os párias da cidade todo dia
geram outros anjos feitos
de fumo e cocaína
cola e craque.

 

8 comentários:

Amélia disse...

Mais um dos seus exclentes poemas,desta vez sobre estes novos anjos/párias...Gostei muito, amiga.

Anônimo disse...

"um anjo desossado ingressa às vezes no sangue de quem passa/
e deita em suas horas e adormece/
de um sono escuro opaco de lembranças"

Esse poema entra em nosso sangue.
Alguma coisa se perde a cada instante na cidade, no mundo, na alma das pessoas. Bem lembrado o verso do Rilke.

Um forte abraço
César

Graça Pires disse...

A cidade tem anjos e pombas que nos perseguem sem darmos por isso...
Um belíssimo poema!
Beijos.

O meu livro não se encontra no Brasil, mas pode pedir ao Editor. Tenho o link no meu "Ortografia"
Obrigada.

J.F. de Souza disse...

na diversão
em brincar de ser deus
criamos nossos anjos

J.F. de Souza disse...

Ah! Aproveitando... Queria convidar vc pra participar do Amigo Poético do B7C!

http://blogdesete.blogspot.com/2009/12/amigo-poetico-ano-2.html

O que acha da idéia?

Fred Matos disse...

Ainda bem que você me chamou a atenção, Adelaide. É um ótimo poema, com um lirismo que é difícil usar em tema tão pungente.
Ótima semana.
Beijos

Mai disse...

caramba!

fraturante, dade, real.
beijos, querida.

Analuka disse...

Só uma poetisa verdadeira para transformar tristeza, dor e feiúra, miséria, em poesia... Beijos alados, Adelaide querida.