domingo, janeiro 31, 2010

Lembranças


Tudo estava tão triste na sala e na varanda e os pássaros da rua tão calados, imaginava por quê, sem ter ideia do que estaria por vir dali em diante todas as tardes à hora em que não chegaria ninguém, como em todas as horas agora acontecia, e as distâncias pareciam maiores, salas de espera mais desoladas que de costume e as pessoas impenetráveis e secas como passas velhas, não importa a idade que pudessem ter ou que razões carregassem nas mochilas.

Tudo jazia a vida mecanizada e o dia-a-dia monótono, por causa do horizonte fechado a poucos metros de distância de seus olhos, e dos relógios que os homens nunca deixam de fabricar  para ninguém, sem acontecimentos ou vozes nem olhares que abrissem outra visão impossível de iluminar, em uma casa tão pragmática e bem equipada para viver espantando as lembranças e satisfazendo desejos sozinhos que as traziam de volta sem calor nem voz.

Lembranças são partituras feitas para nenhum instrumento.

 

5 comentários:

fernanda s.m. disse...

« ... sem ter ideia do que estaria por vir dali em diante todas as tardes à hora em que não chegaria ...»

triste quando já só ouvimos ao longe o som de uma partitura antiga que nenhum instrumento toca...
Muito bonito este texto, Adelaide.Boa noite.

J.F. de Souza disse...

algumas nos tocam.

Mai disse...

As vezes eu me questiono para que servem certas lembranças. Se a melancolia enfraquece, porque insistimos em melodias tão tristes, não é?

Abraços

Nilson disse...

Muito, muito, muito bonito isso!

Carito disse...

tudo muito bonito por aqui... esse texto, todo o blog... quanta delicadeza...