segunda-feira, julho 23, 2007

Predição


Escher.


Uma nesga de futuro
se instala
em cada palavra.

Num dia que não se sabe
quando vem
secreto
o futuro
devora quem o decifra
desmente quem o procura
e além de tudo
derrete todo enigma.

sábado, julho 21, 2007

Epígrafe



Cinzas do tempo
pousam
em todas as histórias,

sexta-feira, julho 20, 2007

Visão



Maria Júlia


O dia se esvaiu
e ainda resisto
presa ao batente da porta
por onde vislumbrei
o paraíso.

quinta-feira, julho 19, 2007

Impermanência


Pablo Picasso.

Veio do mar
e atravessou o arco do dia
nos olhos luz
sol entre os dentes.

Bebeu a tarde
nova de amigos
e anoiteceu
de amor
na praia.

Cruzou a noite
da lua nova
e foi paixão
da maré mais alta.

Mas todo dia
marés e luas
se desencontram.

quarta-feira, julho 18, 2007

Esfera

Os calendários guardados
escondem roupas
que já não vestem o presente.

Num aposento secreto
se refazem
fios soltos do bordado.

O passado engendra o novo
e a história recomeça a cada instante.
Era outra vez uma vez.

Já vi esse filme antes.

terça-feira, julho 17, 2007

Asas


Imagem Justin Bua. Guitarrista pop.

Ressoam vozes
de anjos dementes
velando os vivos.

Vestem de roxo
e quase nunca
usam as asas.

Ando hoje em dia
na doce companhia
de anjos tristes.

segunda-feira, julho 16, 2007

Cena

Da colina
só se viam mar e céu
e uma enganosa placidez
a ondular lá embaixo
enquanto o vento tecia
palavras entre os cabelos
e o poema se erigia em carne.

O tempo da paixão
é o tempo em que se tem tudo a perder.

sexta-feira, julho 13, 2007

Voto



Rolo nos dedos um cigarro
que não se repetirá
sabor e brasa perecíveis
sujeito a um juízo repentino
e irrevogável.

Que ao menos não se apague
e todo em fumaça azul
se evole.

quinta-feira, julho 12, 2007

Reencontro


E. Munch. O beijo.

Os cânticos do céu
são todos meus
quando tu estás.

Sete virgens e seus véus
nesta noite
serão tuas.

quarta-feira, julho 11, 2007

Cidade



As linhas de minha mão
se estendem pelas calçadas da cidade
e bifurcadas desenham quarteirões.

As praias de meu desejo
sem promessas
surgiram de repente numa esquina
e imprevistas se cumpriram.

Nesta cidade traçada em minhas mãos
há sempre o mar
rosais pelos jardins
e brisas a alimentar as minhas forças.

Até me alegra
saber que os cruzamentos
predizem riscos
nos sinais da vida
: sigo o rastro do perigo
nas trilhas que o povo abriu
como feridas.

Não quero descobrir
aonde me levam luzes falsas
encontrarei talvez horas malditas
de lâminas na carne.
Ainda assim tudo que mais desejo
é a cidade das surpresas
sempre a brotar em milagres
das linhas de minha mão.

terça-feira, julho 10, 2007

Sazonal

Minha memória floresce
em pleno outono
jasmins brancos e frios.

segunda-feira, julho 09, 2007

Noturno


Foto Natália Correia. Noite de lua.

Marcas que fogem
trilhos de trem
estendem o tempo.

Rios correndo
lavam a terra
leitos do mundo.

Entrecortada no céu
meia-lua adormecida
perfuma a noite.

sábado, julho 07, 2007

Confissão


Foto Charlie Schreiner.

Confissão

Amo-te às vezes como quem perdoa
uma ilusão, mentira ou uma ofensa
com esse amor que te parece à toa.
Te amo talvez bem mais do que tu pensas.

Amo-te às vezes como quem concede
ou quem desdenha sem querer comprar.                                                                                 
Te amo a um modo que o amor não se concebe
como um favor prestado por amar.

É que esse amor imenso me supera
e fez de mim seu guarda e alicerce
enquanto esconso te espreita feito fera.

E quanto mais o escondo ele mais cresce
e ronda atormentado pela espera
e te devoraria se pudesse.

sexta-feira, julho 06, 2007

Estante



Às vezes fecho o livro que estou lendo
para expurgar fantasmas
que me invadem.

Os livros têm licença de mentir
ou sufocar de verdades quem se arrisca.
Explicam nossas culpas
nos tocam sem cortesia
e atingem os sentidos.

Às vezes me percebo
nas palavras
outras sofro
quando sem compaixão
nem saída
a vida escrita
esmaga um personagem.

Palavras que se atraem
escritos e leitores
dão-se as mãos
para evocar momentos
e se bifurcam num jardim de Borges
multiplicados
perseverantes
e vivos
nas estantes.

Em sua secreta música
uns são baladas
outros sinfonias
outros ainda
desarmonias da linguagem.

quinta-feira, julho 05, 2007

Mariana

Um traço de vida à espera
nos botões de madrepérola
e os cadernos sob o braço
um brilho de sol no olhar
e um sorriso feminino
como um beijo.

O que espera Mariana
da vida que numa esquina
espera por ela ainda?

quarta-feira, julho 04, 2007

Sinais



Sinais

Entram de manso
no barco imenso da noite.
Na trilha dos desejos
brotam palavras e rastros
marulhos de uma tarde
aquecida de estrelas.

Nada do que disseram
era verdade.

Em cada gesto
o brilho manso da noite
a casa pronta
a porta destrancada.

terça-feira, julho 03, 2007

Maçã


Ana luisa Kaminski. Transe.

Um ponto cardinal
dança em gotas de sol sobre a vidraça.
O inseto olha a maçã.
Nada do que disser o poema
tem o poder do olhar.
Nenhum de nossos temas
consegue mais do que mapear
a força do desejo
e o medo de cravar
enfim
os dentes na maçã.

domingo, julho 01, 2007

Ludwig e Rainer



Beethoven me passeia pela sala
examinando estantes
e olha as rosas-chá por uns minutos.

Percebo um brilho de alegria em seu olhar
logo abre o livro dos poemas de Rainer
que estive lendo à tarde.

Pouco a pouco
os versos o transformam
e ele sobe
translúcido e alado
e some no azul escuro da noite que começa.

sábado, junho 30, 2007

Poema sem voz


Foto Helen Levitt.

Nenhum poema canta o desatino
nenhuma voz, ainda que clandestina,
pôde falar da pele que acendemos.
Nenhuma loa se eleva transgredida
a essa paixão calada e desmedida
que se esfacela ao vento nas calçadas.
O que dói mais é o que não mais existe
e esse pranto amargo que persiste
anônimo nos olhos sempre secos.

sexta-feira, junho 29, 2007

Nem Drummond nem Quintana

Fiquei tão gauche na vida
que pela esquerda posição em que me encontro
nem da esquerda faço parte.

O anjo torto voltou o rosto
resplendente
e disse apenas:
“Assim não é possível.”
Desviou os olhos,
retirou o amparo
e nem conselhos deu.
O anjo torto se foi
e depressa me esqueceu.

Acredito que tudo isso
seja só falta de um estilo próprio.
Afinal,
ninguém pode amar alguém
que não seja um outdoor de si mesmo
não saiba cantar
e nem ao menos utilize o photoshop.
Ninguém em sã consciência
entende tanta falta de cadência
tanta resignação ante o real
e tanta falta de raça.

Qual é a graça de não ter respostas à altura
e de viver entre livros e teclados
e nem ao menos se inscrever num chat
– maneira diuturna
de procurar sua turma?
Além de tudo os anjos
voltaram à moda
e agora vivem diante dos espelhos
comprados secretamente na Avon
descobrindo o prazer da própria imagem
insipientes narcisistas
intolerantes para com mortais
que lhes pareçam angélicos demais.