sábado, novembro 20, 2010

Momento




A chuva se recria
nas folhas da amendoeira
canta
na franja dos telhados
a madrugada líquida que chega.

É tanto o que independe
de nós
aos olhos mais atentos
– as luzes que vacilam
e nada saberemos dos bichos escondidos
no escuro mais escuro –
nada
de tudo que subsiste
sem que os sentidos registrem.

De todos os sinais
sobram frações
segundos, séculos
girando em outra esfera.

Se a pele é fiel ao tempo
o vento embala
ou destrói
e a chuva é mais que suas nuvens.

Olhando pela vidraça a sedução do tempo
quem sabe o mundo que iremos encontrar
depois do sono.
Ainda assim o momento é mais forte
e o esquecimento nos salva.

9 comentários:

Marcantonio disse...

Uma inquietação filosófica deixada em aberto, nesse tom tão particular seu que vai abrindo diversos planos mentais a partir de uma sensação.
Quando observo um fenômeno da natureza é sempre a mesma sensação da minha pequenez, da minha desimportância, da minha alienação diante das simultaneidades. Só quando o olhar é menos abrangente posso ser importante sem me dar conta disso. Deve ser intolerável viver em perspectiva. O momento, então.

Beijo.

Zélia Guardiano disse...

Um deslumbramento, minha querida Dade!
Poema-reflexão, eu diria...
Lindo demais!
Abraço apertado, amiga.

Assis Freitas disse...

maravilha Dade, momento ímpar



beijo

Adair Carvalhais Júnior disse...

Belo poema, Dade.

Mirze Souza disse...

Belíssimo, Dade querida!

Ainda bem que existe o momento e que o esquecimento nos salva!

Quase um hino de louvor!

Beijos

Mirze

Leonardo B. disse...

[é nesses momentos que o universo cabe nos grãos de areia que se podem guardar numa mão: na outra, as palavras que nos trazem pelas pedras dos caminhos]

um imenso abraço, Dade

Leonardo B.

MariaIvone disse...

Tantas são as questões que nos avassalam quando olhamos à nossa volta e tomamos consciência da nossa pequenez que, se não fora a salvação pelo esquecimento, seria pela loucura.

Mas como o esquecimento nos salva, loucura são os seus versos: Lindos!!!

Nilson disse...

Perfeita a análise de Marcantonio, sobre esse tom de sua poesia 'ue vai abrindo diversos planos mentais a partir de uma sensação'. E é verdade: o esquecimento nos salva, a chuva transcende as nuvens.

José Carlos Brandão disse...

Basta a beleza da chuva nas folhas da amendoeira.
O tempo nos sufoca? Você disse bem: o esquecimento nos salva.
Estou, neste momento, olhando a chuva cair sobre a cidade.
Para que mais?
Beijos.