sexta-feira, março 19, 2010

Rio 2



Reconhecer no rio
o exercício do mundo
sem espelhos.

Cumprir o curso
em que se aprende a ser solto
desinquietar.

Crescer
como se fosse o fim sendo o começo
da grande queda.

Amar o abismo
paixão de rio entregue ao salto.

 

quarta-feira, março 17, 2010

Rio 1


O rio margeia o dia
rosário líquido
canta
reza
não se sabe.

Melhor dizendo
o rio faz as preces
transidas
transitórias
de quem sabe que um dia
vai secar.

segunda-feira, março 15, 2010

Cumplicidade



Preparamos penumbra de floresta
aves de incenso em pátina de espaço.
Limita-nos um teto de silêncio
e as palavras nos tocam
em som de pensamento e voz de sonho.

Temos cenários
ouro
asas maduras
travo de história
e tímidas ternuras pela boca.

O mesmo gesto modela nossos membros
e logo os ata.
Falamos juntos coisas separadas
vivemos separados coisas juntas
e uno e o tempo de nossas vestes
distâncias e lugares.

Sob o teto sem fim de nossa sombra
caminham nossas sombras de mãos dadas.

sexta-feira, março 12, 2010

Insônia 4


Música de antes do paraíso
e pós serpente.
Um pensamento tortuoso
o dia todo calado
habita o quarto.

Encontro desmarcado
cabeça ainda plugada
cinzas de incêndio
algum tipo de amor
esfacelado.

quarta-feira, março 10, 2010

Desassossego



 

O que nos falta

é a fumaça dos cigarros

que não fumamos juntos.

 

Os corpos são agora

mapas sem a cidade

que foi nossa.

 

Sobre a terra

ficaram rastros

que nunca se apagarão.

 

segunda-feira, março 08, 2010

Incisão

Manhã de sol em gotas
o domingo chegou
antes das nuvens partirem.
O mar é um bicho triste
na praia nua.

Sétimo dia sem crias
um talho entre semanas
dedo cortado em folha de papel.

sexta-feira, março 05, 2010

Casuarinas




















Trazido pelo vento
viajante sem pastor
o rebanho das sombras.

Na estrada frutos mortos
desejos e promessas extraviados
as árvores apontam para o norte
o céu
uníssono de estrelas apagadas.

O mar devolve à praia
aves sem rumo
famintas
irresolutas de frio e ventania.
Nuvens incidentais
falseiam seus fantasmas
e da distância
as casuarinas nos olham de soslaio.

terça-feira, março 02, 2010

Madrugada












Foto Oasinweb.


Te conheci bem antes dessa manhã
quando te inventei.
Te trago há tanto tempo!
A tua identidade é um pouco a minha,
teu pensamento deita em meu repouso.
Te conheci bem antes
e te reconhecer
é como andar de madrugada pelo campo.