quinta-feira, outubro 21, 2010

Congonhas


Seria uma cidade igual às outras,
diamante bruto ao fundo da montanha-mina,
não fosse pelo bailado dos profetas no adro
os movimentos leves de pedra-sabão
as dobras panejadas de seus mantos
e as faces impenetráveis
angulosas.
Esses profetas
cobrem a terra de harmonia lúdica
em cantos inaudíveis.
Tornam em ouro o pó
e o azul do céu em prata clara.
Decidem os destinos da cidade
secretamente
no espaço-tempo dos fatos.
E ao lado da aparente sisudez
praticam um misticismo fetichista,
ritualista e irreverente
que à noite anima os personagens pios
dos passos da via-sacra
para os fazer pecar.
São sábios a seu modo,
unânimes como os sete anões de Branca de Neve
e, íntimos do Pai,
riem dos homens e dos anjos,
enquanto lançam sobre os visitantes
o olhar vazio das estátuas.

10 comentários:

Marcantonio disse...

Formidável essa vida secreta dos profetas. Só a poesia pode animar as estátuas e verter imagens de seus olhos rígidos.

Beijo.

Amélia disse...

bela interpretação da procissão de profetas do Aleijadinho.Já tiva a sorte de estar em Congonhas -nos idos de 1996.Um abraço

Sônia Brandão disse...

E quanta poesia há nessas imagens de pedra!

bjs

Assis Freitas disse...

cantico perfeito,


beijo

Jefferson Bessa disse...

Que bonito, Dade! É sentir a cidade (e suas estátuas) pelo poema. Um beijo. Jefferson.

nydia bonetti disse...

Teu poema me levou, Dade, até este canto de Minas onde tudo é história e natureza. Amo as cidades históricas. Sempre que posso, volto correndo. beijos.

Mai disse...

Comunhão - O Homem, sua Arte e a cidade. Poesia e criação dão vida às esculturas.

beijos, Dade.

Leonardo B. disse...

[admirável como a palavra conserva e restaura com mais cuidado os nossos patrimónios, que muitos projectos rabiscos de cimento ou betão]

um imenso abraço, Amiga Dade

Leonardo B.

Lara Amaral disse...

Vc dá vida a tudo que escreve, imagino essas estátuas à noite nos observando.

Beijo!

Mirze Souza disse...

Lindo, Dade!

Uma perfeita análise dessa cidade que uma vez conhecendo não se esquece.

O místico e o belo como se viessem do Pai, marcam muito!

Beijos

Mirze