quarta-feira, outubro 24, 2012

Banco de dados



 
O banco de dados do mundo
começa com o arquivo da gênese
escorrendo por entre os dedos do Senhor.

Todo homem tem seu tempo
mas nem todos espremem seu suco até o fim
e o que resta é um arquivo morto
ou quase isso.

Os ônibus lotados datam de mais de um século
mas só nos novecentos
os homens começaram a pendurar-se nas janelas
(e as mulheres só no carnaval).

As mulheres preferem olhar os ônibus de outras janelas
e estão sempre buscando alguma coisa
: maçãs, serpentes, vestidos, homens extraviados
os filhos mortos serenamente vivos em suas fotos
até que no jardim nasçam lápides novas
datadas de algum dia sem memória
que a humanidade não quer lembrar
em shows de rock e a ópera da temporada.

Enquanto a criação descobre as alegrias
da science fiction e do cinema desdobrado na platéia
o mais é pasto até o fim dos tempos
em cada porta do imenso casarão
onde habitam os que até agora conseguiram escapar.

6 comentários:

Assis Freitas disse...

poema de longo alcance, com cheiro da vida dos magazines,



beijo

Tania regina Contreiras disse...


Te ler tem sido essencial. Gosto quando me sinto fecundada por palavras que não minhas e nunca serão. Mas que tomo emprestadas quando leio.

Beijos,

R. Vieira disse...

Hummm... Adorei chegar aqui.

"Todo homem tem seu tempo mas nem todos espremem seu suco até o fim"

Uma reflexão necessária diria urgente!!

Aloísio disse...

Muito verdadeiros, o poema e o banco de dados.

Beijo

AnaC disse...

Beleza e um mergulho em realidades que nem sempre atinamos.

Beijos!

Ivan disse...

Lindo poema, enriquecedor!
Beijos do Ivan.