sábado, junho 26, 2010

Corpo e cidade















O corpo entregue à cidade
estreia sensações de luz sombra
e ruas conjugadas
em sol, poeira e fumaça,
os passos misturados.




O corpo que descansa
deixa a cidade distante
como um presente esquecido
na janela.
A cada instante revê as cores
formas e as sombras
os ruídos se alongando pela praia
que o mar engole.
Sonhar vem de surpresa
do labirinto guardado por um touro
e o touro tem uns olhos de criança
em contas feitas de matéria escura.
                                       
                                
                                                                                                            dade amorim
Foto R.C. Costa. Chove em BH.
Poema reeditado.







***



Um Poema-amigo que vem de Portugal


Susana Miguel foi uma descoberta dessas que só mesmo a Internet torna possíveis. Não conheço livro dela, sei pouco a seu respeito. Mas o que sei, quase diria, me satisfaz tanto que nem pensei em descobrir muito mais, porque me parece suficiente para que já lhe queira muito bem.

O poema que escolhi está datado de 12 de março deste ano.






H. Matisse.


às vezes aquilo que dizíamos fazia muito pouco sentido
para os outros. ficávamos surpreendidas com o número de eléctricos
que passavam àquela hora e num domingo não era habitual apetecer-nos rir e
inventar uma paisagem no tempo que nos lembrasse
um destino, a antiguidade rodeada de casas e de séculos a crescer à altura
dos olhos de quem as conseguisse ver. e ali estávamos nós as duas
a imaginar uma vida para cada um dos botões que íamos vendo passar
cosidos e bem seguros aos casacos de outras mulheres. penso
em ti e na saudade a única maneira de amarmos as metades e escrevo
(agora forrada a tecido) nesta caixa: apontamentos
sobre a morte e um coração.
   
                                                                               Susana Miguel

6 comentários:

Patrícia Gonçalves disse...

Dade, parabéns!

Seu poema é lindo e a escolha do poema da Suzana, acertadíssimo!!! Os dois poemas se complementam...

"...penso em ti e na saudade a única maneira de amarmos as metades e escrevo
(agora forrada a tecido) nesta caixa: apontamentos
sobre a morte e um coração". Lindo, lindo!!!

beijo grande

P.S - sou apaixonada pelos olhos do touro!

Assis Freitas disse...

puxa dois grandes poemas, muito, demais da conta,

abraços

Carol Timm disse...

Dade,

Lindos poemas, outro belíssimo encontro de poesia.

Cada dia mais penso em que caminhos o destino tece para encntrarmos a poesia... e o amor.

Beijos e ótimo domingo para nós!
Carol

Carol Timm disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Lara Amaral disse...

O seu poema e a prosa me deixaram em catarse. Dade, querida, quando eu acho que dei meu último suspiro, vc ainda arranca mais do meu peito. Lindo, lindo demais seu poema, e bela escola para o poema-amigo, vou lá conhecê-la.

Beijo, poetisa linda.

Mirze Souza disse...

Lindo, Dade!

"!Sonhar redime os naufrágios consumados!"

Susana Miguel me marcou com: "penso em ti e na saudade, a única maneira de amarmos as metades!"

Lindo demais!

Beijos

Mirze