sexta-feira, junho 18, 2010

A mesa posta



Foto Jean Haute Garonne.



Alguma coisa se aflige
no ato mero de estender a toalha
sobre a mesa.

Essa desordem
transtorna o mundo em montanhas
atinge a várzea
e triste se contempla
até que o céu se desdobre
azul
(o azul é uma canção desatada
que existe mas não canta).

Os pratos postos embora
alguma coisa exista
que nunca se completa.

Alguma coisa é fuga
e implora
sem conseguir o exato
a imagem submersa
extrema de cansaço
e a descoberta
do que sempre existiu
tumultuado e mudo
e falha
à mesa posta.

dade amorim
Poema reeditado.



***

Poema-amigo – dia de Nydia Bonetti

Não há muito tempo que conheço Nydia, mas conheço Nydia desde que comecei a ver o mundo por minha conta. Não seria mentira dizer que gosto muito dela, embora só de poemas seja feita nossa amizade. Poema é a coisa mais ligada ao afeto que pode existir, porque é retrato e é espelho.


(XVI)


a água na chaleira ferve
é madrugada já - a erva é doce
a camomila nem tanto
tisana de perfume suave
perfeita para mentes distônicas
(talvez me adoce a alma)
robótica a mão apaga o fogo
os olhos pesam
(como o nada é pesado)
autômatos os pés se arrastam
zumbi o corpo se atira na cama
mergulho suicida
no vazio onde as dores evaporam
até amanhecer

13 comentários:

Lou Vilela disse...

Dade,


Os poemas e as imagens encantam.

Mais uma escolha que demonstra olhar acurado e bom gosto. Admiro muito o trabalho da Nydia.

Beijos

nina rizzi disse...

fasíssima de nydia, das melhores que achei na rede.

e vc? me delicio cada vez mais. beijos e obrigada pela poema, sim, gosto :)

Assis Freitas disse...

amizade feita de poemas é laço e verso,

beijos

Nydia Bonetti disse...

onde nos leva a poesia? a resposta na brisa: não leva - traz.

é isso dade, a poesia me trouxe amigos e afetos, além do enorme prazer de ler cada um de vocês, com seu jeito muito especial de ser, sua identidade e linguagem próprias. estar aqui hoje com você é muito bom. sua poesia me encanta cada vez mais, pela serenidade que me passa e pela beleza das "cenas" que "assisto", cada vez que venho aqui.

"uma amizade feita de poemas" - como achei isso bonito...

obrigada, dade. beijo grande. :)

Lara Amaral disse...

Um sensação incrível o seu poema nos remete, Dade: uma certa nostalgia; uma coisa que parecemos quase lembrar e, logo em seguida, nossa mente esconde nos enganando; um sentimento rasgado que se aflige... demais, poetisa!

E a Nydia, ah... sou fã, tem uma obra encantadora, leio e releio incansavelmente. E concordo com o que vc disse sobre a poesia e a amizade, pois comigo também ocorre uma cumplicidade muito grande com meus poetas amigos e nossos escritos. É uma troca e tanto, e muito prazerosa.

Beijos em vc duas, que são umas queridas.

José Carlos Brandão disse...

Penso na desordem do amanhecer, os lençóis amarfanhados, a areia nos olhos, e a dureza da vida à espera... Mas a mesa posta é um convite à ordem, à beleza, a respirar a beleza da vida.
Um grande abraço, Dade.

« Katyuscia Carvalho » disse...

Dade,

Primeiro, teu poema, feito de um retalho de imagem, se desdobra ao nosso deleite.
Minha grande admiração por quem sabe dar à poesia, de uma nesga de cotidiano, um ritual que transcende metáforas e faz de letras imagens que jamais seríamos capazes de, de uma outra forma, "ver".
Isso da poesia ter nas palavras o que nem a tinta consegue no pincel do pintor, é das mais sublimes belezas!
Uma tela mais que encantadora conseguiste, e com um "mote" tão singelo que até encanta!

A poesia Nydiana vem depois do tal "ritual" estender-se por sobre a mesa que preparaste, como uma preciosidade e elegância de quem se serve apenas do essencial, enxugando qualquer excesso com lenço de pétala, e tendo por pássaro um pensamento que passa, e que ela colhe como a um fruto no azul do teu céu.

Este post, querida Dade, querida Nydia, ficou das coisas mais belas que já encontrei pela blogosfera.

Grande meu esmero pelas duas poetisas.
.
.
.
Katyuscia

Lalo Arias disse...

Que ninguém nos ouça, viu Dade, essa menina Nydia (que mora aqui do lado esquerdo do meu peito) é do balacobaco. Né não?

Carol Timm disse...

Dade,

Difícil acrescentar mais palavras às duas poesias que se completam: Dade e Nydia.

Mas gostei muito do comentário da Katyuscia e continuo me encantando com sua forma de combinar poesia e amizade como essencial.

Que bom fazer parte disso tudo!

Beijos,
Carol

PS: Hoje RISCO está imperdível, já leu?

Úrsula Avner disse...

Oi Dade,

Seu poema é belo e muito expressivo. Remeteu-me ao livro Reunião de família da Lya Luft. O poema da Nydia, igualmente belo, dialogou com o seu em plena sintonia. Aprecio muito os textos da Nydia e os seus também. Bj com carinho,

Úrsula

Jefferson Bessa disse...

Bom ver essa reunião de versos. Nydia e Adelaide: poetamigas. Lindo encontro!
Beijos pra vocês.

Sônia Brandão disse...

Beleza em dose dupla.

Também admiro muito o trabalho de nossa amiga Nydia. Muito boa a sua escolha, Dade.

bjs

Nilson disse...

De volta (de novo!), à blogosfera, e passeando pelos blogs, me deparo com novas surpresas dessa sua série que é demais. Nydia é uma voz inconfundível - e esse poema é uma boa prova disso. E você, Dade, é sempre essa torrente de poesia. E como os poemas dialogam!!!