terça-feira, julho 24, 2007

Metapalavra

A todo gosto
servem as palavras.

Palavras fazem climas
cataclismos
espinhos de ironia
mas vadias
não obedecem a ninguém
e cada um as lê como prefira.

Grandiloqüentes bregas argentinas
francesas entendidas sedutoras
entretecidas de wit da Britânia,
outras mediterrâneas
de outras terras
polissemias do Leste em ideogramas.

Palavras são como águas
percorrendo
o mais fundo do fundo

longe longe
ao mais fecundo âmago do nada.

Juntas constroem pontes
monumentos
e são tijolo e cimento
pinturas coleções e arquiteturas
matéria e primas obras
de toda literatura e toda rima.

Sucede às vezes que palavras secas
se espalhem pelo chão
e quem as pise
ouça estalar vazios que elas dizem.
(Aquelas que o vento leva
o mar recolhe
para escrever a música das conchas.)

Nos vãos que os versos deixam entrever
brotam metapalavras toscas fugidias
consolo e ilusão de almas sozinhas
– das almas sonhadoras
tristes tíbias
que em lugar de viver
fazem poemas.

segunda-feira, julho 23, 2007

Predição


Escher.


Uma nesga de futuro
se instala
em cada palavra.

Num dia que não se sabe
quando vem
secreto
o futuro
devora quem o decifra
desmente quem o procura
e além de tudo
derrete todo enigma.

sábado, julho 21, 2007

Epígrafe



Cinzas do tempo
pousam
em todas as histórias,

sexta-feira, julho 20, 2007

Visão



Maria Júlia


O dia se esvaiu
e ainda resisto
presa ao batente da porta
por onde vislumbrei
o paraíso.

quinta-feira, julho 19, 2007

Impermanência


Pablo Picasso.

Veio do mar
e atravessou o arco do dia
nos olhos luz
sol entre os dentes.

Bebeu a tarde
nova de amigos
e anoiteceu
de amor
na praia.

Cruzou a noite
da lua nova
e foi paixão
da maré mais alta.

Mas todo dia
marés e luas
se desencontram.

quarta-feira, julho 18, 2007

Esfera

Os calendários guardados
escondem roupas
que já não vestem o presente.

Num aposento secreto
se refazem
fios soltos do bordado.

O passado engendra o novo
e a história recomeça a cada instante.
Era outra vez uma vez.

Já vi esse filme antes.

terça-feira, julho 17, 2007

Asas


Imagem Justin Bua. Guitarrista pop.

Ressoam vozes
de anjos dementes
velando os vivos.

Vestem de roxo
e quase nunca
usam as asas.

Ando hoje em dia
na doce companhia
de anjos tristes.

segunda-feira, julho 16, 2007

Cena

Da colina
só se viam mar e céu
e uma enganosa placidez
a ondular lá embaixo
enquanto o vento tecia
palavras entre os cabelos
e o poema se erigia em carne.

O tempo da paixão
é o tempo em que se tem tudo a perder.

sexta-feira, julho 13, 2007

Voto



Rolo nos dedos um cigarro
que não se repetirá
sabor e brasa perecíveis
sujeito a um juízo repentino
e irrevogável.

Que ao menos não se apague
e todo em fumaça azul
se evole.

quinta-feira, julho 12, 2007

Reencontro


E. Munch. O beijo.

Os cânticos do céu
são todos meus
quando tu estás.

Sete virgens e seus véus
nesta noite
serão tuas.

quarta-feira, julho 11, 2007

Cidade



As linhas de minha mão
se estendem pelas calçadas da cidade
e bifurcadas desenham quarteirões.

As praias de meu desejo
sem promessas
surgiram de repente numa esquina
e imprevistas se cumpriram.

Nesta cidade traçada em minhas mãos
há sempre o mar
rosais pelos jardins
e brisas a alimentar as minhas forças.

Até me alegra
saber que os cruzamentos
predizem riscos
nos sinais da vida
: sigo o rastro do perigo
nas trilhas que o povo abriu
como feridas.

Não quero descobrir
aonde me levam luzes falsas
encontrarei talvez horas malditas
de lâminas na carne.
Ainda assim tudo que mais desejo
é a cidade das surpresas
sempre a brotar em milagres
das linhas de minha mão.

terça-feira, julho 10, 2007

Sazonal

Minha memória floresce
em pleno outono
jasmins brancos e frios.

segunda-feira, julho 09, 2007

Noturno


Foto Natália Correia. Noite de lua.

Marcas que fogem
trilhos de trem
estendem o tempo.

Rios correndo
lavam a terra
leitos do mundo.

Entrecortada no céu
meia-lua adormecida
perfuma a noite.

sábado, julho 07, 2007

Confissão


Foto Charlie Schreiner.

Confissão

Amo-te às vezes como quem perdoa
uma ilusão, mentira ou uma ofensa
com esse amor que te parece à toa.
Te amo talvez bem mais do que tu pensas.

Amo-te às vezes como quem concede
ou quem desdenha sem querer comprar.                                                                                 
Te amo a um modo que o amor não se concebe
como um favor prestado por amar.

É que esse amor imenso me supera
e fez de mim seu guarda e alicerce
enquanto esconso te espreita feito fera.

E quanto mais o escondo ele mais cresce
e ronda atormentado pela espera
e te devoraria se pudesse.

sexta-feira, julho 06, 2007

Estante



Às vezes fecho o livro que estou lendo
para expurgar fantasmas
que me invadem.

Os livros têm licença de mentir
ou sufocar de verdades quem se arrisca.
Explicam nossas culpas
nos tocam sem cortesia
e atingem os sentidos.

Às vezes me percebo
nas palavras
outras sofro
quando sem compaixão
nem saída
a vida escrita
esmaga um personagem.

Palavras que se atraem
escritos e leitores
dão-se as mãos
para evocar momentos
e se bifurcam num jardim de Borges
multiplicados
perseverantes
e vivos
nas estantes.

Em sua secreta música
uns são baladas
outros sinfonias
outros ainda
desarmonias da linguagem.

quinta-feira, julho 05, 2007

Mariana

Um traço de vida à espera
nos botões de madrepérola
e os cadernos sob o braço
um brilho de sol no olhar
e um sorriso feminino
como um beijo.

O que espera Mariana
da vida que numa esquina
espera por ela ainda?

quarta-feira, julho 04, 2007

Sinais



Sinais

Entram de manso
no barco imenso da noite.
Na trilha dos desejos
brotam palavras e rastros
marulhos de uma tarde
aquecida de estrelas.

Nada do que disseram
era verdade.

Em cada gesto
o brilho manso da noite
a casa pronta
a porta destrancada.

terça-feira, julho 03, 2007

Maçã


Ana luisa Kaminski. Transe.

Um ponto cardinal
dança em gotas de sol sobre a vidraça.
O inseto olha a maçã.
Nada do que disser o poema
tem o poder do olhar.
Nenhum de nossos temas
consegue mais do que mapear
a força do desejo
e o medo de cravar
enfim
os dentes na maçã.

domingo, julho 01, 2007

Ludwig e Rainer



Beethoven me passeia pela sala
examinando estantes
e olha as rosas-chá por uns minutos.

Percebo um brilho de alegria em seu olhar
logo abre o livro dos poemas de Rainer
que estive lendo à tarde.

Pouco a pouco
os versos o transformam
e ele sobe
translúcido e alado
e some no azul escuro da noite que começa.

sábado, junho 30, 2007

Poema sem voz


Foto Helen Levitt.

Nenhum poema canta o desatino
nenhuma voz, ainda que clandestina,
pôde falar da pele que acendemos.
Nenhuma loa se eleva transgredida
a essa paixão calada e desmedida
que se esfacela ao vento nas calçadas.
O que dói mais é o que não mais existe
e esse pranto amargo que persiste
anônimo nos olhos sempre secos.

sexta-feira, junho 29, 2007

Nem Drummond nem Quintana

Fiquei tão gauche na vida
que pela esquerda posição em que me encontro
nem da esquerda faço parte.

O anjo torto voltou o rosto
resplendente
e disse apenas:
“Assim não é possível.”
Desviou os olhos,
retirou o amparo
e nem conselhos deu.
O anjo torto se foi
e depressa me esqueceu.

Acredito que tudo isso
seja só falta de um estilo próprio.
Afinal,
ninguém pode amar alguém
que não seja um outdoor de si mesmo
não saiba cantar
e nem ao menos utilize o photoshop.
Ninguém em sã consciência
entende tanta falta de cadência
tanta resignação ante o real
e tanta falta de raça.

Qual é a graça de não ter respostas à altura
e de viver entre livros e teclados
e nem ao menos se inscrever num chat
– maneira diuturna
de procurar sua turma?
Além de tudo os anjos
voltaram à moda
e agora vivem diante dos espelhos
comprados secretamente na Avon
descobrindo o prazer da própria imagem
insipientes narcisistas
intolerantes para com mortais
que lhes pareçam angélicos demais.

quinta-feira, junho 28, 2007

Sentimentos


Blue Molleskin. Auto-retrato.

O que não fiz
bate insistente no teto do porão
sob meus pés.

Cruza comigo na rua
demora um olhar de enigma em meu rosto
e seu sarcasmo fere os sentimentos
que todas as manhãs
espalho sobre a pele
(que para isso servem os sentimentos).

quarta-feira, junho 27, 2007

Tradução


Imagem de Saul Bass.

Presa entre os dentes
a palavra espera
desespera
e inarticulada se traduz
uivo e lamento.

terça-feira, junho 26, 2007

Paisagem


Monterey Baycom.

Buscou alguma vida
um reinício
mesmo desgastado
para repor as aves que fugiram
durante as décadas do engano.

As chuvas de hoje
fecundaram as margens da barragem.
As águas chegaram
a ocupar boa parte da terra
disponível.

Nada no entanto mudou essa paisagem.


Teia viva

A teia é
fio a fio
condição de aranha e
laço do extravio.

Raiada em rumos
em si emaranhada e
expansiva
a seda contra os voos
a teia é
por si mesma
aranha viva.

domingo, junho 24, 2007

Babel



Às margens do asfalto
os edifícios desenham a vida
como se fossem os ossos da cidade.

Tanta gente indo e vindo
e os pensamentos são linhas de cerol
enquanto os mutilados misturam
os passos.

A quem pode importar
o que se sente
e o que expressam
esses rostos velozes de
fotogramas em preto-e-branco?

Ninguém conhece
as línguas que falamos
se mais que exíguo
o tempo nos confronta
nesses momentos incivis
perdidos em Babel.

sexta-feira, junho 22, 2007

Canção ao pai

Pai,
hoje pela manhã eu te encontrei bem jovem
olhando para mim da capa de um disco de Tom Waits.
Por que não me disseste
há mais tempo?

Daquelas tuas histórias
das longas noites de angústia que viveste
e me legaste
– soturno, a voz um eco escuro –
por que não me falaste?
Estavas nessa capa
e eras outro.
Estavas nessa capa
e me sorrias
como em notícia de jornal antigo.

Te procurei, meu pai,
depois de morto
para saber o rumo de tua vida
ao peso de tantos anos de tristeza
e os dias que perdeste nesse exílio
em que te aprisionaram, asas cortadas,
vivendo um outro em outro nome dado.

Por que não me contaste, pai,
o que soube tão tarde
– por que só te encontrei
depois que emudeceu
a tua voz?

quinta-feira, junho 21, 2007

Legado




Flores e voos da manhã
respondem minha questão.

Fui perdulária sem fim
e tudo que era meu restou perdido
: guardei lembranças e sonhos
friáveis como pétalas e asas.

terça-feira, junho 19, 2007

Exemplar


Léon-Jean Perrault. Uma história interessante.

Tenho nas mãos
um exemplar cheio de sangue
sob a pele.

O que o corpo procura
tão fundo em outro corpo?
Palavras curativas?

Melhor assim
a natureza nos deu um par de olhos
para enxergar os limites do contorno
e a isso chamamos vida.

domingo, junho 17, 2007

Sétimo dia

Sétimo dia
domingo
sol sem brilho.

De tudo que foi desfeito
de tudo que foi pisado
nada que faça sentido.

Infinitivo
o tempo nos vira as costas
e tudo vira passado.

sábado, junho 16, 2007

...


De noite
pardas desilusões
semeiam gatos cegos.

sexta-feira, junho 15, 2007

Condomínio


Foto Elliot Erwitt

O hálito
não te pertence
: perfume destinado
desde sempre
a quem te colhe
pétalas na pele.

quinta-feira, junho 14, 2007

Ceia

No calor do sangue
o brilho traiçoeiro dos rubis
vinho de nossa ceia.

segunda-feira, junho 11, 2007

Perspectiva




Vidro e madeira a meu redor
Veneza reluzindo na memória
e um poema dormindo sobre a mesa.

Se alguém ligar
pode dizer que nunca mais eu volto.

domingo, junho 10, 2007

Exílio


Foto Boris Kossoy.


Da estação deserta desse dia
uma viagem de trem pelo desvio
seguiu sem sonhos a bordo
rumo a uma terra nublada
de onde nunca voltaria
da longa manhã no exílio.

sexta-feira, junho 08, 2007

Espelho

Alguma coisa insegura
paira suspensa
no abismo
cisma no rosto.

O tempo passa
a máscara vincada
se altera
em aura e brinca

no corpo
nos cabelos
ora incerta.

Nos espelho
o antigo apelo
mostra o avesso.

quinta-feira, junho 07, 2007

Poliedro


anton peticov. the inner look.

Do jogo articulado no começo
resta pouco
:
a curva menos firme
fios ainda dourados no cabelo
no braço esquerdo
o sinal.

Células novas
de antigo desencanto
e as fotos
os espelhos.

terça-feira, junho 05, 2007

Salto no escuro ao sol


Pablo Picasso. Françoise Gilot.


A sensação de segredo da
semente ainda fechada
algum desejo sem nome
rua quieta na manhã
cidade em férias.
Caminhar sentindo
o sol
ainda morno
o melhor do verão
não o melhor
da vida.

Melhor talvez
ceder um pouco mais
ao outro lado
sentir-se menos responsável
menos ferido
mais liberto.
Ver em qualquer lugar
uma isenção
e conviver com a rotina
o desencanto
as lembranças.

Ter que existir
corola
que teima em não fechar e
fica recebendo o mundo
no coração.

segunda-feira, junho 04, 2007

Vento

O vento percorreu a tarde inteira
cortinas agitadas
jogou ao mar ligeiros lenços brancos
e mutações na areia.

Se o vento revogasse as leis mesquinhas
as frases feitas, juízos e conceitos
com que tecemos nossos disfarces
meias-verdades mentiras

o mundo mudaria sua face
e o sol talvez nascesse em plena noite
para mostrar o mal que o vento leva.

As ilusões, as crenças e disfarces
perderiam seus açoites
e o amor teria enfim vencido a treva.

domingo, junho 03, 2007

Timidez



Escondo-me nos dias
como entre nuvens
espumas
para assistir a vida
atenuada.

sábado, junho 02, 2007

Incidência

Em meu tempo de criança
achava que a realidade
era uma caixa de ruge
cheirando a royal briar.

Em meu tempo de criança
não havia realidade.

Muito mais tarde aprendi
a realidade é nuvem sobre um rio.
A realidade chora sobre o rio.

Quem será essa senhora?

quinta-feira, maio 31, 2007

Notícia


Edvard Munch. Mãe morta.

Vou aos pedaços
no limiar da fuga
para onde continuo sem saber.

Aprendo agora o que teus olhos dizem
a contemplar o que não posso ver.
Teus olhos se perderam noutro tempo.

Mãe
a morte te transcende e me transcende
mas não te apaga.
A morte é o fim de todos os presságios
uma armadilha
a morte é uma aranha em sua teia.

Mãe
a morte vigilante aos poucos enredou
a tua irmã que mais amou a vida.

terça-feira, maio 29, 2007

Trama

A história foi tramada
em cores e desalinhos
canções cruzadas
e passos
companheiros.

O amor cortado aos pedaços
é amor para sempre inteiro.

domingo, maio 27, 2007

Marinha


René Magritte. La grande famille.

Às vezes o mar dorme
a prensa do silêncio
guardada nos abismos.

Limiar



Te amo e te perder é o que mais temo
mas não suporto mais viver sonhando
e não saber se vivo ou se deliro
ou se é real o que no entanto espero.
Temo perder o amor que nunca tive
ou o amor que tenho sem saber ao certo.
Temo o olhar que vem desses seus olhos
e a falta desse olhar me desepera.
Já não sei mesmo se vivo ou se te espero
se sou a tua escrava ou uma princesa
se o amor que sinto é vida ou é demência.
Já nem sei mais dizer o que mais quero:
se é ficar e morrer dessa tristeza
ou ir embora e morrer de tua ausência.

sexta-feira, maio 25, 2007

Negligências


Palavras têm vida própria
brotadas dos vãos do dia
ou de uma vida feroz
que vem de dentro.

Independentes
visitam nossa boca
repetem negligências.

Às vezes nos escapam
voam sem rumo
pela voz do vento.

quarta-feira, maio 23, 2007

Filme

Um eco de juventude toca a terra
sereias olham a praia

Sereno o mar acolhe a mesma lua
e mansamente canta a madrepérola
os sons do céu trazidos pelas conchas
canções de areia e espuma
e as faces da paixão que o luar
oblíquo
prolonga além de todas as idades.

No escuro do cinema
tudo é de novo como antigamente.

segunda-feira, maio 21, 2007

Ouro Preto




Uma demência rasa
sorrateira
frutificando em cada vão de porta
cortou bem rente todas as certezas
e do passado restaram
balcões e alguns fantasmas.

Em cada rua relógios
sem ponteiros
pássaro tonto de tempo nos telhados
e o calendário esparso nas calçadas
procissões
vozes de amores findos
subindo dos bueiros.

domingo, maio 20, 2007

Quimera


Louis Anquetin. A avenida Clichy às cinco da tarde.

No relógio da sala
uma quimera antiga
escala as horas.

sábado, maio 19, 2007

Janela III



O dia surge em torrões
luz do oriente.
As horas se desdobram em véus
abelhas
cores florescem.

E quando a noite inaugura
a imensa catedral de uma janela
três estrelas recortadas
papel prata e purpurina
se derramam pela sala.

À luz da lua
desassisado o rio desatina
e canta
como se fosse o mar.

sexta-feira, maio 18, 2007

Vernissage


E. Munch. Blossom of pain.

Desejos desenharam
imagens na lembrança.
Arqueologia de rastros
os retratos.

Desfeita a perspectiva
adiar a vida
em paralelas atiradas longe
ao tempo.

quinta-feira, maio 17, 2007

Hoje



Hoje não quero nada do que tenho
hoje não quero
senão o impossível.

Hoje é o combate das sombras
a discussão sem rumo
o indiscernível.


terça-feira, maio 15, 2007

Cidade


Foto C. Costa

Um ônibus ronrona
aço irritado
entre ruídos sem nome.

De uma janela
a esperança espia e se recolhe.

O céu toldado resume
as ameaças do mundo
nos galhos da amendoeira.

Alheio a tudo o menino
pedala para bem longe
uma canção de infância
e salvação.

segunda-feira, maio 14, 2007

Testemunha



Quando você sai
e o retrato da mesinha
alonga o olhar de paz
à mão com que aceno da janela
percebe com certeza
antes de nós
a transfiguração da tarde
e o blues que se insinua pela sala.

Esse retrato
conhece
a perfeição sem palavras
o inominado
o estado puro do amor
como um rosa perfeita
despetala.

sábado, maio 12, 2007

Destudo



Em meu jardim imaginário e frio
o imenso templo sem deus
ficou vazio.

O olhar não segue mais
vulto nenhum
e os planos de viagem
versam agora mapas
de miragens.

quarta-feira, maio 09, 2007

Retratos




Lembra o vestido de linho
daquele dia
sozinhos na varanda?
Lembra da luz
última luz da tarde
dom do estio
sobre o tapete da sala?

Lembra a manhã daquele outono frio
o vento pela praia
nossas festas
noites de junho
os dias de Veneza?

Lembra a música das conchas
o horizonte
as frases do segredo
a delícia da pele
– lembra?

Lembra que a vida
inda floresce à tarde na varanda
e enche de asas o ar que respiramos.
Nosso desejo é como um andarilho
que nada sabe do tempo
e nunca esquece.

terça-feira, maio 08, 2007

Outono

Fez hoje uma tarde frágil
clandestina
pelo ar
a luz do outono
úmida e leve.

Me debrucei no muro
pensei colinas
azuis
e a mim me devolvi
de mim lembrada.

segunda-feira, maio 07, 2007

Gaivota


Rui Elias. Rota de colisão.

Voando ao vento
sabe seu rumo
inscrito em cada pena.

domingo, maio 06, 2007

Vitral



A compoteira que foi de vovó
já não existe
: agora é cacos azuis.
Minha tia predileta
que me ensinou tanta história
de repente me faltou.
Meu primeiro namorado
casou e sumiu no mundo
e me casei com o segundo.

Perdi as cores mais vivas
o colo quente e as cantigas
e nunca mais vou ser virgem.

O que se perde em história
vira vitral na memória
o saldo da vida inteira
vale mais que a compoteira
a ternura que se sente
ensina que o amor existe
e já dizia Vinicius
docemente
: é melhor ser alegre
que ser triste.

sábado, maio 05, 2007

Manhã de inverno



O que te falta
impele
motivos novos
faces desconhecidas
e tudo te enamora.

O que não foi
ilumina teus caminhos.
O amor que não deu certo
e já não sangra
alimenta a vida que te espera.

A vida que te espera
além da porta
será agora
a mais bela manhã de inverno ao sol.

sexta-feira, maio 04, 2007

Das dores


E. Schiele. 1918.


Doem as previsões
o inacabado
e o cortejo dos sonhos sem futuro.
Doem medos persistentes
e a solidão
minha gêmea.

Doem os chamados que não escutei.

Dói como raiz desenterrada
todo poder injusto
na servidão dos motivos.

Doem as interdições sem rosto
lobotomia incruenta do desejo.

quinta-feira, maio 03, 2007

Prisma




Medula, sangue e alento
o teu momento irisa meus sentidos.

Serei se tu quiseres
tua véspera
um exercício de anjo
e a terra onde cravar tua raiz.

quarta-feira, maio 02, 2007

Finito


E. Munch.

Perto de um cais noturno, treva espessa,
conto as estrelas sozinhas e me esqueço
de quanto sou também sozinha e triste
desde semanas atrás, quando partiste.

Conto as estrelas caladas e o silêncio
contém a escuridão e é como incenso
subindo em homenagem aos que sofrem
cantando um mudo canto sem estrofes.

E nesse cais escuro debruçada
olho o balanço sem fim da água apagada
pensando vagamente no romance,

jogo finito no primeiro lance,
que foi como uma trova ou uma chance
de renovar a vida e deu em nada.